Diário-Sem-Fio

Este diário narra as tentativas de conexão durante uma viagem de final de semana para o Sul, passando por três aeroportos, vários pontos de acesso e algumas redes abertas. As conclusões são esperadas em alguns casos, decepcionantes em outros e curiosas, em sua maior parte. Acompanhe…

Início e Preparativos

Já que teria que viajar para resolver assuntos pessoais, resolvi aproveitar para angariar dados e tecer uma visão do estado das redes sem-fio no Brasil. Como ia me aventurar no Paraná, planejei a viagem para usar ao máximo os recursos oficiais E extra-oficiais disponíveis. Inclua-se aí wifi, bluetooth, cybercafés em último caso. Municiei-me de:

  • Notebook
  • PocketPC Dell Axim x30
  • Wifi Finder
  • Carregadores
  • Câmera digital
  • Leitor de Cartão SD
  • Telefone Nokia N-Gage com Bluetooth / Symbian

Saí na sexta-feira, peguei o Leito da Itapemirim/Penha, direto. Meu WIFI-Finder já havia detectado uma ou mais redes na Rodoviária Novo Rio, era hora de experimentar.
Detector de redes WIFI da Kensington

Infelizmente o PocketPC não localizou nenhuma rede disponível, e não sou doido de puxar um notebook ali. Imagino que a rede seja 802.g, configurada para não aceitar conexões de equipamentos 802.b, como o Axim x30. Tudo bem. O GPRS da Claro funcionou sem problemas, fiquei no GPRS até a hora do embarque, avisando a quem deveria ser avisado. No ônibus uma simpática mocinha olhava curiosa enquanto eu tentava telefonar usando o n-gage. Realmente é um tanto constrangedor ser visto com uma orelha de abano biônica, mas ao menos é Symbian. �Com licença, isso aí é um telefone?� �Também� �Como assim? é mais o quê?� �Veja bem� � comecei a explicação habitual � �Isso é um videogame da Nokia, que entre outras funções também fala, mas não muito bem. De resto, é excelente�. �Ah, tá. é que minha mãe achou que era um iPod. Ela está doida por um iPod.� Certo. Estou ficando velho e condescentente. Não pensei sequer em perguntar onde ela guardou o cachorro e a bengala.
Jogo: Diferencie o iPod do N-Gage Felizmente um erro no sistema havia vendido um lugar que não existia; um remanejamento voluntário me colocou na poltrona número 1, onde pude confortavelmente checar meus emails com o profimail e jogar conversa (e dinheiro) fora com o Agile, graças ao GPRS.
ProfiMail e Agile Messenger: Dupla essencial em qualquer aparelho Symbian A Avenida Brasil, assim como a Marginal Tietê está bem servida de redes WIFI, mas a própria velocidade do ônibus impede uma brincadeira mais séria de Wardriving. Eu diria que WarShuttling (você leu primeiro aqui) só serve como reconhecimento inicial. *** Momento Discovery*** Uma rede WIFI costuma ter um alcance teórico de 100m. Um ônibus andando a 60Km/h faz 60.000m em 60 minutos. Isso quer dizer que em 10 minutos ele faz 6000 metros Ou em 1 minuto, 600 metros. Ora, sendo assim ele faz 100 metros em 1/6 de minuto. Isso dá menos de 20 segundos. Quem já tentou autenticar uma conexão WIFI sabe que entre detectar, negociar, autenticar e acessar se gasta muito mais que isso. WarShuttling se resume a �oi e tchau�. Já o GPRS é outra história. Como foi feito pra isso, a mudança de células é transparente, a conexão é preparada para dar qualidade total até o último erg antes de desconectar por falta de sinal, e só uma montanha (ou um morrote mal-posicionado) para cortar o sinal. Infelizmente a Dutra está cheia de pequenas zonas de sombra. Nada preocupante, mas chega a irritar, ainda mais quando esqueço voluntariamente da época em que sequer existiam telefones celulares… ou do tempo em que as primeiras torres foram instaladas na estrada, e comprava-mos telefones baseados em cobertura nacional, roaming, etc, ao invés de ser por causa da câmera, do MP3 ou do (que idéia louca) sistema operacional do aparelho. Sendo zonas pequenas, o Agile consegue compensar. Já mais de dois minutos, só reautenticando. O custo é MUITO baixo. Ao contrário de um SMS, com seu custo de até R$0,25 por mensagem de 128 caracteres, a tarifa de R$0,04 por KByte é uma festa. Lembre-se, são 1024 caracteres. Mesmo descontando cabeçalhos e outros pacotes, ainda sai muito, muito em conta usar instant messengers via GPRS. Após São Paulo o acesso começa a se tornar problemático. Há uma grande região na Régis Bitencourt onde simplesmente não há qualquer acesso GPRS. Pegar um engarrafamento de 4 horas ali não é algo que eu recomende a ninguém. Na região próxima às cidades ainda consegue-se conexão. Em todo lugar onde há claro, há GPRS. A velocidade é honesta, não há atrasos, ao menos nos Instant Messengers. Fiz uns testes com email, baixando mensagens curtas. Indistinguível do acesso nos grandes centros. Por volta de oito da manhã, uns 40 ou 50 minutos de Curitiba, já temos cobertura nos moldes do início da Dutra: Tudo muito bom, a menos que um barranco interrompa a linha-de-visada. Isso só será contornado quando a comunicação por celular passar a ser feita via dirigíveis em grandes altitudes. NA CIDADE Em toda a cidade a cobertura da Claro é impecável. Não há o que reclamar do GPRS. Nem vou entrar em muitos detalhes. Se alguém perguntar como funciona o GPRS em Curitiba, a resposta é �funciona bem, obrigado�. Por desencargo, testei o acesso WIFI na rodoviária. Nada, claro. A cidade ainda está longe de ter uma rodoviária bem-equipada como São Paulo, onde há acesso WIFI a dar com o pau. Uma rápida corrida até o hotel (de táxi, não sou masoquista) revelou algumas redes, a presença aumenta de acordo com o poder aquisitivo da região. No Batel, zona nobre da cidade, só os shoppings não contam com cobertura. Alguns hotéis oferecem acesso VEX, outros oferecem Ethernet tradicional… até o íbis oferece sua exclusiva �conexão telefônica para internet�, uma segunda tomada de telefone na parede onde o hóspede liga seu notebook, disca pro provedor e se vira. Passeando pelo Shopping Cristal, descobri uma ou duas redes, ambas fechadas. Mau sinal.
Minha estação de trabalho, montada próxima à janela No hotel, montei o notebook próximo à janela, iniciei um software de wardriving cortesia da Toshiba, e imediatamente achei várias redes ao alcance. O máximo foram 5 simultâneas. Algumas bloqueadas por criptografia, outras pedindo chave, o resto configurado SEM servidor DHCP, o que já ajuda a restringir o acesso. Uma delas parecia promissora. Nome de rede? �Default�, sem criptografia, restrição ou senha. Acionei a opção de conectar… Não deu outra: Ganhei um IP e acesso direto a seja lá que rede for essa. Em segundos estava na Internet. Não só isso, ainda em alta velocidade… Aproveitei para subir fotos pro Flickr, baixar toneladas de emails, procurar programas pro Pocket… Só não fiquei no Skype por falta de gente pra falar comigo.
Isso mesmo, conexão liberada. Muito, muito feio… Aqui cabe um parêntese: A culpa de a rede estar aberta ao mundo é da tecnologia? Padrão malvado, padrão ruim, mau padrão… Não. Não creio que um padrão de protocolos possa ser culpado por mau uso, displicência ou descaso. O administrador que deixa a senha do banco de dados em branco é culpado, não o sistema. Não há como culpar a tecnologia, se você anota sua senha em um Post-It colado no monitor. Felizmente para mim, meu benfeitor anônimo se lixava pra segurança. Claro, não vim pra cá para roubar banda alheia. Contava com o acesso WIFI da Vex, disponível em alguns pontos selecionados da cidade. Um deles era o Fran�s Café.
Se eu pudesse moraria aqui… A menos de três quadras do hotel, montei minha mochila-mobile e fui pra lá. Chegando pedi uma Bohemia escura. Não confiando no adesivo WIFI/VEX na porta, acionei o detector. Havia sinal! Aí morreu a alegria. Tanto o notebook quanto o PocketPC funcionavam. Conectavam na rede, ok, mas receber IP que era bom, nada. Aparentemente o Access Point estava habilitado, mas o servidor DHCP desligado. Desisti do Fran�s, frustrado com a Velox WIFI mais uma vez. Fui cuidar de outros assuntos. No dia seguinte, penúltima chance. A FNAC do Shopping Barigui. Sim, lá mesmo, o antro do demônio, o último lugar que um fanático por tecnologia deveria entrar. Mesmo assim, para testar a conectividade sem-fio do Paraná, faria eu esse sacrifício. De posse de um Frapuccino (recomendo veementemente) acionei o detector. Sinal WIFI presente. Abri o pocket. Bingo!!! Conectividade, excelente velocidade, tudo funcionando. O Dell Axim x30 era agora um legítimo equipamento Wireless. O acesso foi testado com um Dell x50v. Também funcionou perfeitamente. Já com o notebook… nada. Um Toshiba Satellite, rodando Windows XP atualizado até o último byte, que havia conectado na noite anterior com uma rede completamente desbalanceada, não conseguia conectar com um access point teoricamente FEITO para conexões fáceis e rápidas. Não havia jeito do notebook ganhar um IP. Resolvi experimentar: Copiei as configurações do pocketPC, mandei o notebook utilizar os mesmos valores, ignorando a opção de recebê-las automaticamente. Bingo 2 � a missão. Eu estava na internet. Baixei emails em tempo recorde, subi várias fotos em alta resolução, atualizei blogs e fiquei peruando no MSN até a bateria acabar. Só não consegui, mais uma vez, testar o acesso VEX. Sim, a droga do acesso estava liberado na FNAC. Sei que reclamo de barriga cheia, mas não era assim que eu queria. Minha experiência com o VEX não estava sendo muito auspiciosa. Mesmo descontado a frustração de ter me encharcado na chuva para achar a loja do Bob�s com acesso WIFI em Botafogo, só para descobrir que a loja não existia mais, dar com a porta na cara virtualmente foi ainda pior do que ao vivo. Minha última esperança era o acesso nos aeroportos. Meu objetivo agora era testar nos três de meu caminho: Afonso Pena, Congonhas e Santos Dumont. Minha sorte de aranha (leitores de gibi entenderão) não ajudou. As Forças Ocultas conspiravam diretamente contra mim. Desde a portaria ligando meia-hora mais tarde para confirmar o despertador (me tirando do banho, claro) até o táxi com pneu furado na PORTA do hotel mostravam que o Universo, como sempre, estava contra mim. Atrasado feito um coelho de histórias infantis, meu único consolo (até por que macho não usa essas coisas) era que o tempo estava absolutamente fechado. Nem jesus em um bom dia ascenderia aos céus com aquelas nuvens. Fechado também estava meu vôo. Na verdade, fechado preso e embalado. Me encontrei na estranha situação de entrar na fila de espera de um avião que teoricamente tinha um assento com meu nome, e que para completar não estava ali, e sim preso em Joinville por causa da neblina. Fazer o quê… peguei os tickets de embarque, subi pro café do segundo andar, abri o notebook e comecei a fuçar as redes.
Na medida certa. Nem atulhado como
o Santos Dumont nem opressivo como Congonhas
Não é exatamente um cardápio de botequim em termos de opções, mas a Vex estava lá, junto com a rede da Brasil Telecom e uma da Varig.
Não exatamente alta velocidade… Acessando a Vex, dessa vez ganhei um IP, abri as páginas do VeloxWifi, achei que tudo funcionava. Ledo engano. Nada de autenticação. A informação nas páginas do VeloxWifi é que, ao entrar em um site sem ter sido autenticado, você será redirecionado para o site da Vex. Em teoria. Na prática nada acontece. Você espera… espera… Resolvi tentar o acesso direto pela Vex. Entrei em http://www.vexbr.com.br e não deu outra: Nada. Nenhum lugar para logar, nenhum �clique aqui para se autenticar�, nada. Só uma lista de provedores e a tradicional cantinela de como somos lindos e maravilhosos. Cliquei no provedor. Fui pro site do VeloxWifi. De novo. Autentiquei-me lá, mas só consegui minha lista de serviços, como créditos, etc. Cliquei em �Acesse a Internet�, fui redirecionado para o site da Vex (de novo) mas dessa vez pediram para escolher o provedor. Eu sei, é muito difícil identificar que o corn-digo, querido usuário veio da Velox. Dessa vez tudo funcionou. Mais alguns cliques, estava acessando sites, email, Flickr, tudo mais. No Aeroporto Afonso Pena o acesso não era grande coisa. Na FNAC era rápido, bem rápido, mesmo sendo uma rede de 50Mbits. No Aeroporto o acesso não passava de 11. Como eu era um dos poucos, não chegava a ser problema, mas a idéia de pagar para ter um acesso WIFI, pagar caro, e ser recebido por um access point furreca de R$100 é deveras frustrante. Tentei o acesso pelo PocketPC. Necas. A pesada página da VeloxWIFI não abria. Descobri no notebook que o acesso inicial é todo via https. Isso acaba com qualquer performance de um handheld. Os sucessivos redirecionamentos são ajudam também. Tive que resetar o x30 várias vezes. Tenho certeza de que se ainda estivesse com meu T3 com cartão WIFI, ele teria explodido, qual a formiguinha da piada. Botei o pocket de lado, terminei meus emails, subi uma foto pro Flickr, empacotei o bicho e fui pro embarque. Eram 09h10min, sendo que minha conexão em SP estava marcada pras 09h45min. As chances de a Varig ter um BlackBird SR71 me esperando eram tão pequenas que já dei a conexão como perdida. Não que o conceito me fosse estranho… Em São Paulo fui mais feliz que em Curitiba. Ao menos em termos de conexões WIFI. Após remarcar a conexão para 10h45min, fui para o embarque, sentei próximo ao portão, abri o notebook e sondei o local.
A tela do software de wardriving da Toshiba Uma pletora de redes me esperava. Sem perceber, o danado havia achado a rede da Vex, por algum motivo eu ainda estava autenticado de Curitiba, todos os meus acessos funcionavam e a conexão era assaz rápida. Nada a ver com o efeito-linha-discada do Afonso Pena. Congonhas tinha uma conexão de primeiro mundo. (ou pelo menos como nós imaginamos que o primeiro mundo se conecte) Testei acesso a bancos, MSN, Google Talk e, para me exibir um pouco, voz-sobre-ip. Tudo perfeito. Com direito a tomadas nas paredes para você recarregar seu bichinho enquanto espera a chance de virar uma grande mancha vermelha na paisagem.
Não foi a rede de 100Mbits que acessei do hotel, mas esta está dentro dos padrões e é bastante rápida. A turbulência na viagem pro Rio foi tanta que eu tinha certeza de que o piloto ouvia toda hora �Use a Força, Luke�. Se eu não adorasse voar estaria usando aqueles saquinhos de papel. Pena que a bateria no final não me deixou testar aquele papo de que WIFI derruba aviões. No Santos Dumont (A Cora tem razão, ele é charmosíssimo) fui para o desembarque, abri o note, ainda com bateria, pesquisei por redes e realmente, a Vex estava lá. A Bia2 não havia mentido. Também havia outras redes, mas nada extraordinário como Congonhas. Acionei a conexão, tentei páginas externas. Nada. OK, faz até sentido. Vamos autenticar. Lindo, em teoria. Na prática, não achei como. O truque de ir pra página da Vex não funcionou. A conexão se recusava a abrir qualquer página com servidor seguro. Aparentemente o gênio responsável pelo firewall esqueceu que a Vex só autentica via https. Fechei o notebook, resignei-me a só acessar WIFI de novo quando chegasse em casa, mas um pulo ao banheiro para terminar este artigo me revelou uma grata surpresa; uma rede WIFI aberta, com SSID �default�, bem ao meu alcance. Estou conectado, chupando WIFI de novo de algum desconhecido, papeando no MSN e trabalhando ao mesmo tempo. Eu amo tecnologia ;)

Conclusão (a sério)

O acesso WIFI está se tornando algo muito difundido. Em menos de dois anos se os preços caírem, irá se tornar uma pedra no sapato das operadoras de telefonia fixas que não perceberem o quanto mais barato o serviço é, para elas. Do ponto de vista do usuário, é um pesadelo de suporte. As chances das atendentes do Fran�s em um sábado à tarde terem a mais remota idéia do que seja um servidor DHCP são as mesmas do meu T3 se curar de MDS sozinho, ou o x30 durar mais de meia-hora com Bluetooth e WIFI ligados. Um usuário experiente só conseguiu conexão em 60% da vezes, sendo que em duas trapaceou. Um leigo, que liga o notebook e espera que ele faça tudo sozinho, falharia em pelo menos 80%. Para um serviço pago isso é inaceitável. Também notei certo descaso com o Rio. Mesmo subutilizada uma conexão de 11Mbits não é uma boa vitrine para um serviço dito banda-larga. é um investimento muito pequeno. Dá idéia de ser o patinho feio do marketing da Telemar. Uma pena. Mais uma vez, vão perder o bonde. O mais importante disso tudo, que pode significar ostracismo do WIFI no ambiente empresarial, é a péssima imagem causada por usuários incompetentes que não fecham suas redes. ISSO não tem nada a ver com tecnologia, e sim com procedimentos. Só que na hora que sair reportagem no Fantástico denunciando os �hackers sem-fio que entram na sua casa pelo ar�, ninguém vai querer saber. �Wifi é fácil de invadir� vai virar o motto do século XXI, como �Videogame estraga televisão� foi para a geração dos anos 80.

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