A Internet matou a escrita pensada

Quando eu estava no colégio uma colega apareceu com uma revistinha, falando sobre penpals. Era um serviço onde você preenchia uma ficha, enviava uma carta para os caras, eles iriam achar alguém que se encaixasse e passariam seu endereço para a pessoa.

Se tudo desse certo em alguns meses você receberia uma carta de alguém que nunca viu antes, tentando iniciar contato, em busca de uma amizade no exterior.

Era uma coisa limpa, honesta, sem tarados, estritamente de crianças para crianças. Para nós era uma janela para outro mundo, foi emocionante esperar, esperar e depois de três meses receber uma carta de uma jovem americana, em um espanhol meio quebrado, mas entendível.

Nossos correios não eram lá muito ágeis, então a carta levava em média um mês para chegar ao destino. Com isso tínhamos tempo de sobra para pensar sobre o quê escrever.

Hoje? Se um email não é respondido na hora, logo vem outro. “recebeu meu email?” ou mesmo um telefonema.  Não que tenhamos lá muita paciência em primeiro lugar. Email é bateu/levou. Será por isso que é tão descartável?

Lembro que da primeira vez que chegou uma carta, saí mostrando no colégio, era mais motivo de se gabar do que encontrar com  a professora na rua, por acaso. Sim, para um guri de 10,11 anos professoras viviam em uma terra mística qualquer, entender a mestra como uma pessoa de carne e osso estava além da nossa capacidade. Encontrar com uma em um supermercado era assunto para a semana inteira.

Envelopes de outros paises, com cores estranhas nas bordas, selos alienígenas, canetas coloridas que não existiam aqui. Céus, como era divertido, e como isso se banalizou com o email. Claro, hoje em dia é muito melhor, mas o preço que pagamos é a perda da magia.

Ou vai me dizer que você se lembra da última carta que escreveu…


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  • Concordo com o que você escreveu, Cardoso.

    Eu, como bom old school que sou, mesmo tendo 20 anos (por pouco tempo), me lembro da última carta que escrevi, sim: April 24, 2007.

    Com o detalhe que foi para o exterior também. Mas ainda bem que o serviço melhorou bastante e chega em até uns 7, estourando 9 dias. ;)

    Abraços!

  • Belíssimo post! Concordo plenamente. A internet facilita e acelera a comunicação, mas a torna muito menos fascinante. Infelizmente…

  • E namorada…

    Você pode mandar 1000 e-mails, mas se ela te mandar UMA carta e você nenhuma, vai te cobrar o resto da vida..

  • Pois é Cardoso, você está coberto de razão. Fico muito triste quando me dou conta de que nunca escrevi uma carta na vida. Nem mesmo para promoção do Caminhão do Faustão. E olha que sou relativamente velho… 25 anos. Bem, aproveitando a deixa, você sabe dizer se o tal penpals ainda existe? Tenho um filho e, quem sabe ele não opta por caminhos mais poéticos. Aquele abraço.

  • Poxa, me lembrei agora quando eu passei dias me gabando porque sabia dizer Sim e Não em inglês. Tinha uns 6 anos na época.

    Mas hoje a gente ainda pensa, o detalhe é que temos apenas alguns segundos pra isso.

  • É verdade.

    Tenho vinte e três anos e nunca escrevi uma carta, já e-mails, perdi a conta…

  • Carta, o que é isso? hehehe!

    Lembro do penpal. Correspondia com uma garota em Portugal e outra na Austrália. Perdemos contato. Aí veio o ICQ e achei a garota da Austrália lá… Trocamos mais alguns emails, mas como demorava pra responder, o tempo foi ficando cada vez mais longo até o momento que um de nós deixou de escrever… ou será que ainda vamos escrever… o tempo que alongou demais? De qualquer forma é por aí… Email parece exigir resposta quase imediata. Se vc não responder na hora é quase certo que nunca mais vai responder… Eu costumo marcar as mensagens que não pretendo responder na hora mais devem exigir atenção posterior. Tem dado certo.

  • Acho que faz mais de 15 anos que não escrevo uma carta

    (Mais ou menos isso)

    E quanto a receber:

    Só o DVD do Solaris 10, e uns CDs do Ubuntu e todo final de ano recebo uma carta do banco dizendo quanto tenho que pegar de imposto.

    Fora isso, e tudo na base do e-mail

  • Pingback: Crônicas Imortais()

  • Ola Cardoso,

    que Post maravilhoso me trouxe de volta velhas sensacoes.

    Eu tenho 33 anos e me lembro do tempo onde recebiamos essas cartas.

    Qq. carta com cores diferentes era sim motivo de orguilho, vc. mostrava pra todo mundo.

    Eu me lembro de alguns amigos que foram fazer intercambio e eu recortando noticias da Veja, Isto E, Estadao, NP pra mandar pra eles. Tinha um certo orgulho de chegar nos Correios e pagar por uma carta pro "estrangeiro".

    Porem isso eh passado,

    Hoje eh tudo muto direto e rapido, convites pra batizado, casamento, inicio de namoro, fim de namoro, muitas vezes vem online.

    Pelo menos aqui na Australia (onde vivo) as pessoas ainda, por incrivel que pareca, se comunicam com uma carta aqui e outra ali.

    abracos

    e obrigado por esse Post, me fez muito bem.

    Lucio

  • Eu escrevi algumas cartas nos últimos dias mas faziam anos que não fazia isso.

  • é a era do "fast food" da informação… Ou será da miguxização da informação?

  • Pim

    Como sabemos que o e-mail é instantâneo, temos a necessidade de receber as respostas também instantâneas. Como os serviços de correspondência são demorados, então não nos importamos em esperar pela carta-resposta, porque sabemos que ela vai demorar. É relativo.

  • É, Cardoso, parece que você pegou pesado, desta vez. Mexeu com quem há anos não escreve uma carta, e também com quem nunca escreveu.

    Era muito bom levar as cartas ao correio, a gente se sentia orgulhoso. Quando sobrava grana (o que era raro) e a gente podia se dar o luxo de mandar uma carta por "via aérea" (caríssimo, há 30 anos), era um verdadeiro estado de glória. Cartas trocadas como exterior, então, eram status social garantido.

    Hoje, eu também não escrevo mais cartas. Mal escrevo e-mails, até porque, a maioria dos que recebo são correntes que jogo fora sem ler. Fico feliz, porém, em ver a minha filha usar o "selo social" de um centavo, para trocar cartas com as amigas. Pelo simples prazer de escrever em papel. Isto demonstra que a arte de escrever à mão não morreu. Só está, talvez, meio esquecida.

    A propósito, esperar resposta imediata de um e-mail enviado é algo que todos fazemos, e é um grande erro: o fato de estarmos conectados, e lendo os e-mails, não significa que a pessoa também esteja conectada, muito menos que esteja lendo os e-mails. A menos que seja a Bia Kunze. Mas mesmo ela, embora conectada, muitas vezes está ocupada demais para poder responder na hora. E cabe a nós respeitarmos.

  • Leandro

    Cardoso, que capacidade pra lembrar dessas coisas !!!

    Ja fazem anos que não escrevo uma carta, aliás, acho que já faz um bom tempo que não escrevo nada além da assinatura do canhoto do cartão de crédito (que tembém deve acabar logo ..)

    Mas me lebro perfeitamente dos dias que escrevia carta para a NASA, McDonnell Douglas, Boeing, Paramount, gastando o ingles com 10, 12 anos de idade pedindo por coisas que nem sabia pra que serviam e depois de meses recebia um pacotão de fotos de aviões, space shuttles, essas coisas, com uma carta escrita a mão de alguém da NASA (ou dos outros) me agradecendo pelo interesse .

    Será que isso ainda funciona ? Vou fazer meu filho escrever pra NASA de novo !

  • Pôxa, deu saudades agora.

    Saudades da época que eu tinha umas sete ou oito correspondentes, do Brasil inteiro e de Portugal.

    Saudades do cheiro do papel, das canetas, dos adesivos, dos cartões postais.

    Época boa que não volta mais, infelizmente. Hoje em dia é tudo muito imediatista, como disse o Cardoso.

    Esse mundo está "acelerado" demais. Tá na hora de pisar no freio. Essa pressa só está causando stress em todo mundo.

  • certissimo, otimo texxxxxxxxto….

  • Minha ultima correspondencia que recebi foi um tal de cheque do google :(

  • Caramba, a última carta que eu escrevi foi pra uma garota brasileira que mora na Alemanha e que eu conheci…pela Internet!

    Vai fazer uns 5 anos já. O tempo passa rápido, rápido demais.

  • Lu

    Há anos recebo praticamente só contas e propagandas na caixa de correio. De vez em nunca chega uma carta "de verdade".

    Pior acontece com essa geração que já nasceu na frente do computador e não sabe nem como enviar uma carta registrada (outro dia tive que ensinar esse grande mistério a uma guria de 16 anos).

  • Na minha opinião, a comunicação por e-=mail é muito melhor que por carta.

    Imagina. Você acaba de escrever uma carta e enviar pelos correios, quando se lembra de outro detalhe, que deveria ter escrito.

    Com o e-mail, vc manda sua mensagem, se precisar complementar, manda novamente não paga nada (ou quase nada) por isso.

    E-mail é muito mais prático, muito mais barato e muito mais dinÂmico que uma Carta de papel. Perdeu somente o charme de receber uma carta, porém, ganhou na rapidez e dinamismo. Não adianta ter informação sem tempo hábil…

  • Perdemos a magia na comunicação, porque hj é feita pelos emails, mas a magia nas cartas continua.

    Se parar para pensar, em alguns casos (mesmo estando em 2007) uma carta ou um bilhete qualquer ainda chega ao seu destino com a mensagem e a sua magia.

    Tá bom, eu sei, não é como 20 anos atrás, mas a magia ainda existe ;)

  • Ultima Carta para "longe" [para uma amiga, no Natal]

    de Itajuba – MG para Recife-PE

    Carta para "perto" [entregue em maos, pra namorada]

    Começo do ano [10/01]

    É, faz tempo que eu nao escrevo… Mas pelo menos eu lembro :D

  • Pingback: My Weblog()

  • oi jackson tudo bem com vc seu dinheiro esta lah na quele lugar seu 2000 reais vai lah pegar

  • SILVYA

    É preciso pensar a comunicação via e-mail ou via carta dentro das necessidades comunicativas de cada um e da relação entre os parceiros. Para arranjar um amigo ou namorada, a carta, a princípio, parece mais "mágica", mas, para um comunicado sobre uma mudança de horário ou um pedido de livro a uma livraria de outra cidade, vamos combinar, o e-mail é imbatível (econômico, rápido, ágil).