
Calma, não se anime. Não gosto de maluco-beleza, doidos-modinha ou gente que rasga dinheiro. Eu falo de doido com método.
Eu dei a sorte de ter trabalhado com sociopatas que estariam vestindo a pele de alguém, se não tivessem direcionado suas habilidades para outras atividades. Para mim isso é muito bom, eu gosto de ser estimulado (no bom sentido) e algo que me estimula muito é ver gente inteligente obcecada em resolver problemas.
Milhares de anos atrás eu era contínuo high-tech em um Sindicato da UFRJ, uma de minhas principais atribuições era trabalhar com editoração eletrônica. Feijão com arroz, Ventura, Pagemaker, Photostyler para editar uma imagem de vez em quando…
Um dia contrataram uma diretora de arte / programadora visual. Era uma mulher chata, arrogante, de nariz empinado, que ganhou a antipatia de todo mundo do departamento, ela reclamava de tudo, coisas triviais que ninguém perceberia, ela mandava refazer, para desespero do editor, que precisava fechar o jornal.
Não precisa dizer que viramos unha e carne. As implicâncias dela eram todas lógicas, e quando viu que eu não tinha problemas em trabalhar se o pedido fizesse sentido, ela grudou de vez.
Eu adorava a Marília, ela não tinha a menor noção do que era muito difícil ou mesmo impossível, então pedia as coisas, eu no melhor estilo Montgomery Scott respondia “Não dá, isso é impossível… mas vamos fazer mesmo assim”.
Nessa brincadeira eu editava fotos removendo objetos extras da cena, alterava datas em cartazes nas imagens, fazia composições muito além das minhas habilidades, mas com ela guiando minuciosamente cada passo, tudo dava certo.
Um dia essa louca estava editando uma revista comigo. Na metade do trabalho ela cismou que nenhuma das fontes disponíveis no CD-ROM do Corel era de seu agrado. Ela perguntou se havia como modificar uma fonte.
Eu não tinha a menor idéia se TrueType era editável. Nunca havia ouvido falar nisso, então respondi: “Não, isso não existe, mas vou pesquisar.”
Isso foi antes da Internet, não havia “online” fora BBSs, mas eu tinha uma pilha enorme de CDs de shareware, comprados em loja e em revistas. Virei a noite nos catálogos, achei um editor e no dia seguinte passamos a tarde inteira editando uma fonte exclusiva.
Ninguém percebeu, ninguém ligou, mas nós nos sentimos muito foda!
Outra doida com quem trabalhei foi uma pedagoga, na Cultura Inglesa. Era outra chata, povo vivia reclamando que ela era a Rainha da Refação, mas eu percebi que a mulher era antes de tudo perfeccionista, e a gente tinha o mau hábito de fazer tudo nas coxas.
Um dia eu fiz uma página de relatório online consolidando zilhões de dados de alunos, algo considerado impossível pois eram dados demais para os computadores da época, e queriam resultados atualizados a cada consulta. (eu resolvi com uma tabela consolidada, pq eu sou um gênio).
Os dados estavam relativamente corretos, mas a mulher não gostou da formatação. Fiz a primeira alteração, ok, pediu outra, ok. Na terceira peguei o telefone “desce aqui”.
Ela veio, desconfiada. Puxei uma cadeira “senta, vamos fazer isso juntos, senão isso vai levar um mês”.
Ninguém havia feito isso com ela antes. Ela ficou maravilhada vendo alguém programar, ao vivo, os resultados aparecendo. Ela pedia modificações, eu explicava as que não eram viáveis, ela entendia, as outras a gente fazia, alterava, eu sugeria alternativas, ela ponderava, aceitava algumas, aprimorava outras.
No final do dia o relatório online que estava com uma semana de prazo foi finalizado, virou uma das páginas mais bonitas, acessadas e elogiadas do site, e ela passou a me procurar direto, pois sabia que eu respeitava sua obsessão e perfeccionismo.
Outro maluco que trabalhei foi o Henrique Manela. Eu era programador novo em uma empresa desenvolvendo aplicativos para PalmOS. Eu não era muito versado em C, mas programação é programação, então eu dava conta do dia-a-dia mas o trabalho aumentou, e precisávamos de mais gente. O Manela estava disponível e ele era meio que uma lenda da comunidade.
Imagine todos os clichês do sujeito barbudo, quarenta e poucos, que já viu de tudo na vida e agora pegou um emprego mais simples para ganhar dinheiro e relaxar. Ele virou nosso Yoda. Tudo cabeludo demais pro nosso nível, ia pra mão do Manela.
Um dia um programa começou a dar problema. Revisei TUDO, não conseguia achar o bug. Apelei pro Manela.
Ele compilou, rodou, o bug apareceu, ele voltou pro código-fonte, leu, abriu manuais da API, manuais do CodeWarrior (a IDE bosta que todo mundo usava pra PalmOS), mexeu no programa, o bug continuava. Ele então soltou um “hum”.
Eu peguei uma cadeira, sentei do lado e fiquei vendo o Manela pensar.
Daqui a pouco o sócio da empresa que era programador, viu a gente, chegou do lado, puxou outra cadeira e ficou assistindo também.
Manela falava às vezes meia palavra, estudava os manuais na tela… então ele resolve imprimir um dump de memória, em hexadecimal (também bom para trocar mensagens com Marte) e comparou os valores, um a um, rodando o programa passo a passo.
No final ele bate na mesa, solta um palavrão, assusta as meninas da sala.
Vitorioso ele circula dois valores na listagem.
“Achei o problema, Cardoso. Essa função que você está chamando e passa um argumento de 16 bits, tem um bug. INTERNAMENTE ela converte o valor para 8 bits, processa e converte de volta para 16bits, com isso você perde metade das palavras. Se o valor que você passa é menor que 256, tudo funciona, quando passa disso, aí o resultado sai errado”
Eu e o sócio ficamos olhando para ele como os macacos de 2001 olhavam para o monolito. Nem em um milhão de anos teríamos chegado àquela conclusão.
Eu escrevi uma versão nova da função da API, e tudo ficou perfeito.
Trabalhar com quem gosta do que faz e é MUITO BOM no que faz é um privilégio, e ajuda a entender como muitas vezes quem está de fora acha que essas pessoas são… chatas, quando na verdade apenas exigem mais de si mesmas do que você está acostumado.
Então, fica a dica: Na dúvida, seja o chato. Se você for o mais do mesmo, se fizer só seu feijão com arroz, ninguém vai lembrar de você, para o bem ou para o mal.

