Uma diatribe não-solicitada sobre a Ciência

Milhares de gerações atrás um de nossos ancestrais anônimos reparou que as estrelas todo ano ocupavam as mesmas posições quando o tempo começava a esfriar, trazendo o inverno. No ano seguinte ele começou a estocar alimentos algumas semanas antes, quando as estrelas ainda não estavam na posição do começo do inverno. Ao contrário das outras a tribo dele não passou fome ou frio. Logo os padrões das estrelas foram preservados em placas de argila e de osso, como este calendário lunar de 32000 anos atrás:

Pela primeira vez o Homem havia correlacionado observações do mundo natural, associado fenômenos e feito previsões com base no conhecimento acumulado. Na Aurora da Humanidade, nascia a Ciência.

Ainda era uma época totalmente dominada pela superstição, sabíamos muito pouco e a explicação de como o mundo funcionava caía no ombro dos deuses e espíritos das florestas e das águas. Os deuses recebiam as oferendas em troca de uma colheita farta, e nos avisavam com as estrelas a época certa de plantar.

Aprendemos a contar, aprendemos a saber se a comida armazenada era suficiente para todos. Inventamos a geometria para dimensionar nossas plantações. Aquelas primitivas anotações de ânforas de grãos armazenadas evoluíram em alfabetos. Ao inventarmos a escrita pela primeira vez o conhecimento humano deixou de ser limitado ao que uma pessoa conhecia. O livro tornou acessível todo o conhecimento acumulado da Humanidade. Os primeiros cientistas não precisavam mais começar do zero, os gigantes dos ombros dos quais eles observariam o mundo haviam finalmente nascido.

Começamos a observar o Mundo. Começamos a catalogar as plantas que deixavam os animais doentes, as plantas que os animais doentes comiam e melhoravam. Alguém muito inteligente percebeu que pessoas que não comiam carne de porco não tinham vermes, e instigou o temor de Deus para que ninguém mais a comesse.

Quase 2500 anos atrás um grego mediu a curvatura da Terra usando varetas sombras e a inteligência. Na Polinésia séculos de observação das marés e correntes resultaram em mapas de madeira e conchas que permitiam a um povo sob todos os aspectos primitivos viajar em segurança 6000Km mar adentro.

Sailing chart of Marshall Islands archipelago. Black & White photograph, taken in May 1928, from the Science Museum Photo Archive. Object on loan to the Science Museum from the Royal Empire Society

Começamos a tentar preservar nossos mortos. Aprendemos técnicas de mumificação, com isso estudamos anatomia, procedimentos cirúrgicos. O antes totalmente misterioso corpo humano tinha seus mistérios desvendados, de pequeno pedaço em pequeno pedaço. 2600 anos atrás alguém com doses iguais de ousadia e inteligência ousou aplicar o que aprendeu em rituais de mumificação, mas em pessoas vivas.

Milênios depois colegas da ciência desenterraram o trabalho desse pioneiro, uma múmia com um pino cirúrgico no joelho. Primitivo, preso com cola, mas em essência a mesma técnica usada hoje.

Indo além, os egípcios deram os primeiros passos conquistando a Morte. Há múmias com evidências de cirurgia cerebral, gente que teria morrido com edemas, foram operados e o tecido cicatrizado mostra que viveram vários anos após a cirurgia.

Aprendemos a selecionar artificialmente nossos animais e plantas. Em poucas dezenas de gerações passamos a comer mais e melhor, animais selvagens foram domesticados e adaptados para fornecer mais proteína, trabalhar e nos entreter.

Isolamos os elementos, aprendemos a fundir e usar os vários metais. O trabalho ficou mais fácil com as ferramentas mais sofisticadas, prontamente milênios de facas de pedra foram abandonadas pelo cobre, pelo ferro e mais tarde pelo aço.

Nos aventuramos pelos mares. Vikings usavam cristais polarizados para enxergar o Sol mesmo em dias totalmente nublados, mesmo que a ciência por trás só viesse a ser entendia séculos mais tarde. Na China curiosas pedras que sempre apontavam em uma direção foram transformadas em bússolas e logo o mundo todo tinha um novo instrumento de navegação.

De cavernas e choupanas aprendemos a fazer tijolos, desenvolvemos cálculos para construir casas maiores e mais seguras. Criamos cisternas, água corrente, banheiros públicos. Os incontáveis mortos nas epidemias eram coisas do passado, quando aprendemos que a água contaminada era a causa da cólera em Londres.

Por pura observação reduzimos dezenas de vezes a mortalidade infantil e maternal, ao aplicar técnicas simples como lavar as mãos e manter o quarto da parturiente limpo.

Cirurgias, que por séculos eram pura tortura e algo a ser feito em último caso se tornaram rotineiras com o desenvolvimento da anestesia. Doenças mortais como apendicite eram resolvidas com uma simples operação. A disseminação da escrita permitiu que parentes distantes mantivessem contato, logo cartas cruzavam o mundo.

Primeiro o telégrafo, depois o telefone, o mundo ficou bem menor. O que era impensável algumas gerações antes agora era normal. Podíamos falar com uma pessoa do outro lado do mundo.

Hoje nós consertamos o DNA de crianças ainda no útero, livrando-as de doenças mortais. 80% dos casos de câncer diagnosticados precocemente são curados. Vacinas salvaram bilhões de vidas de doenças horríveis como pólio e varíola, remédios sofisticados e caros de 10 anos atrás hoje são vendidos em qualquer farmácia.

Médicos olham dentro do corpo humano com um poder restrito aos antigos deuses. Usamos antimatéria, prótons, supercondutores e campos magnéticos milhões de vezes mais poderosos que o da Terra, nada mais se esconde de nossos olhos curiosos.

Conhecemos as estrelas com uma intimidade obscena. Conseguimos acompanhar padrões climáticos em planetas de outros sistemas solares. Detectamos colisões de buracos negros tão rápidas antigas e distantes que nossa mente nem consegue conceber.

Neste exato momento você tem acesso a um percentual razoável de todo o conhecimento acumulado da nossa espécie. Nenhum Rei Imperador Mago teve acesso a tanto conhecimento. 30 anos atrás o dispositivo que você está olhando/segurando e a infraestrutura por trás dele era pura ficção.

Médicos que estudaram a vida inteira para se especializar em um ramo conseguem pesquisar em segundos o trabalho de milhares de outros médicos, correlacionando casos e descobrindo tratamentos raros para doenças mais raras ainda.  Pessoas em situação de perigo extremo são salvas com um simples telefonema.

Em 2004 dezenas de vidas foram salvas por uma garotinha de 11 anos que aprendeu em uma aula de ciências a reconhecer os indícios de um tsunami, alertou os pais e os hóspedes do hotel onde estavam no Pacífico se refugiaram a tempo.

Não nos perdemos mais por causa do GPS, não sabemos o que é um pulmão de aço, hidrofobia é uma doença que só existe em cartazes de campanhas de vacinação, que cumprimos fielmente sem medo de nossos cachorros ficarem auautistas.

Cada vez vivemos mais e melhor. A expectativa de vida na Europa em 1770 era de 34 anos. Hoje é de 80. Segundo a Organização Mundial de Saúde a expectativa de vida média global aumento em cinco anos, no período entre 2000 e 2015. E sabe onde aumentou mais? Na África, com um aumento médio de 9,4 anos. Tudo graças a investimentos em vacinas, medicinas, saúde pública.

Podemos por muito mais anos acompanhar pousos de sondas em Marte, carros no espaço e astronautas voltando para a Lua. Na mão de boa parte dos humanos do planeta há um dispositivo que pode se transformar em testemunha ocular da história, transmitindo acontecimentos para bilhões de pessoas.

Soldados assistem seus filhos crescerem, famílias se unem, revoluções nascem e se solidificam. Novos talentos são descobertos, crianças sorriem escutando pela primeira vez a voz dos pais, tetraplégicos comandam braços biônicos, cegos dão os primeiros passos com implantes primitivos como as próteses egípcias, sabendo que são pioneiros que terão a gratidão dos cegos do futuro, que irão enxergar mais e melhor do que qualquer mero humano com seus olhos primitivos biológicos.

Uma simples gota de sangue diz quem são seus pais, quem são seus ancestrais, que doenças você pode vir a ter e como evitá-las. Em casa você espeta o dedo e em segundos sabe se precisa de uma dose de insulina, 200 anos atrás você estaria apenas morto, Diabetes Tipo 1 não era problema pois ninguém sobrevivia até a ciência entender a doença e Frederick Banting compreender a função da Insulina nos Anos 20, o que lhe rendeu um Nobel e milhões de vidas salvas.

Estamos longe de ter a resposta pra vida pro Universo e todo o resto, mas conseguimos prever e provocar chuvas, mudamos o curso de rios, cortamos continentes ao meio para a passagem de nossos navios, visitamos todos os principais corpos do Sistema Solar e fomos ao mais profundo dos oceanos.

Por isso é triste, extremamente triste ver o resultado de pesquisas como esta da 3M que apesar de ser apresentada com um tom totalmente positivo, trás verdades inconvenientes. A pior delas é a constatação de que 40% das pessoas acham que suas vidas não mudariam em absolutamente nada se ciência não existisse.

Mudaria sim, minha gente, mudaria. Sem Norman Borlaug não teríamos como alimentar 7 bilhões de pessoas, sem Edward Jenner bilhões morreriam de doenças facilmente controladas com vacinas, sem a infraestrutura de saneamento básico, toda fundamentada em ciência, teríamos repetidas epidemias. E o cientista da televisão que você critica por não pesquisar coisas úteis pode ser o Michael Faraday, que quando perguntado para quê servia essa tal de eletricidade, respondeu “Para quê serve um bebê?”.


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