Dr Rick Jolly ou – às vezes o amigo do meu inimigo também é meu amigo

Enquanto estancava habilmente a hemorragia do soldado em sua mesa de cirurgia, o Dr Rick Jolly provavelmente pensava sobre qual seria o próximo erro. Guerras são vencidas por quem erra menos, não por quem erra pouco. Decisões erradas acontecem o tempo todo, e Jolly havia sido responsável por uma delas: Achar que conseguiriam usar o HMS Canberra como um navio-hospital.

Agora, com a aviação argentina espantando o Camberra para longe da costa e duas bombas não-detonadas penduradas no teto do hospital de campanha improvisado em terra, Rick Jolly tentava pensar adiante e planejar como faria para salvar máximo de vidas na Guerra das Falklands.

Esse planejamento começou bem antes, logo após a invasão argentina. Rick foi acordado 4h da manhã por um telefonema, dizendo que ele tinha meia-hora para se apresentar no Quartel-General da Marinha Real. Formado em 1969, ele tinha bastante experiência como médico, e como reservista da Marinha era um quadro essencial, tanto que ficou a cargo de comandar, como Capitão, os 120 médicos enfermeiras e auxiliares do hospital de campanha britânico nas Falklands.

O que ele não sabia é que o Canberra estaria no meio do contra-ataque argentino, e não foi nada agradável ficar exposto no hospital  logo abaixo do convés de helicópteros, os médicos chegaram a tapar as janelas com tapetes para evitar que a luz vazando se tornasse um alvo convidativo. Logo o Canberra foi movido para 200 milhas mar adentro, e Rick teve 90 minutos para transferir o hospital para terra.

Eles acharam um antigo frigorífico, um salão sem janelas, com uma única porta. Teria que ser ali, e rapidamente toda a infraestrutura foi instalada, incluindo acomodações para os que ali trabalhariam, se é que dá pra chamar de trabalho operar um paciente e se jogar em cima dele para que poeira e destroços do teto atingido por bombas não caíssem nas feridas abertas.

Rick tinha que lidar com os problemas logísticos E com a moral das tropas, entre fuzileiros e paraquedistas a rivalidade era imensa, chegou ao ponto em que em certo dia ele mandou todo mundo parar tudo, organizou as tropas do lado de fora e deu uma comida de rabo daquelas históricas. O hospital passou a ser chamado “Máquina de Vida Verde e Vemelha”, em referência às boinas das duas tropas rivais.

Os atendimentos eram constantes, em 6 semanas fizeram mais de 1000 cirurgias, boa parte delas obra de um médico escocês veterano que trabalhava 24h direto, saía pra fumar e beber uísque, umas horas depois voltava e reiniciava o ciclo. Rick sabia que não deveria interferir na rotina do colega, mesmo sendo tecnicamente contra as regras.

Para piorar os ataques argentinos eram constantes, e os ingleses não podiam marcar o hospital com uma grande cruz vermelha. Segundo a Convenção de Genebra era ilegal usar marcações de hospital em locais que fossem alvos válidos, e o antigo frigorífico ficava ao lado do principal depósito de munições dos ingleses.

Ironicamente o primeiro paciente de Rick Jolly no hospital foi um piloto argentino, que não acreditou muito quando Jolly explicou que ele estava entre amigos, seria tratado e cuidado. A informação repetida por todos os prisioneiros argentinas era que seriam torturados e mortos pelos ingleses.

Quem não acreditou também foi a esposa do piloto ao receber a notícia 3 dias depois, descobrindo que o marido estava vivo. Jolly havia prometido a Ricardo Luccero que tentaria avisar sua esposa de que ele estava bem. Ele cumpriu a promessa.

Ao final da guerra dos 580 soldados britânicos tratados no hospital de Jolly, somente três morreram e nenhum quando ele estava atendendo. Mais de 300 soldados argentinos foram igualmente bem-tratados.

Com o fim da das hostilidades, Jolly voltou para o Reino Unido, onde foi condecorado com a Ordem do Império Britânico por suas ações durante a guerra, mas a história não acaba aí.

Em 1998 durante uma visita à Argentina ele mandou uma lista com o nome de 79 soldados argentinos que ele havia tratado em seu hospital, querendo saber como estavam. A maioria dos argentinos não tinha nem idéia de que algo assim havia acontecido, mas entre os veteranos um movimento estava sendo organizado, e durante a visita Jolly foi recebido pelo Presidente Menem, e seus feitos foram oficialmente reconhecidos.

Rick Jolly recebeu a Ordem de Mayo, uma das mais altas condecorações da Argentina, outogarda por seu “relevante trabalho ao salvar as vidas de muitos soldados e aviadores argentinos”.

Ele se tornou um dos raros soldados a ser condecorado pelos dois lados em uma guerra.

Como e de praxe, é proibido a um militar usar condecorações de outros países, exceto quando autorizados. Jolly escreveu para a Rainha Elizabeth pedindo permissão. Em uma rara resposta pessoal e manuscrita, Sua Majestade o autorizou a usar a medalha “Em todas as ocasiões”, honrando também os outros 300 militares das forças de saúde que serviram nas Falklands.

Jolly é um herói de guerra, e se Yoda diz que guerra não faz ninguém grande, é porque Rick Jolly já o era quando foi baixado de helicóptero, sem salva-vidas ou roupa térmica para resgatar marinheiros de navios bombardeados. Infelizmente ele nos deixou agora, 13 de Janeiro de 2018, aos 71 anos.

Thanks, doc.


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