Como Mary Sherman Morgan resolveu o problema de potência de Von Braun

 

 

 

Werner Von Braun mostra seu foguete para a galera.

Werner Von Braun tinha um problema. Seu foguete não era potente o suficiente, e não ia subir, não de forma satisfatória. No começo dos Anos 50 a Marinha dos EUA tocava o projeto Vanguard, para colocar em órbita o primeiro satélite americano. O Exército também tinha uma equipe, liderada por Von Braun mas haviam sido postos de lado pelo Governo. Com o fracasso espetacular do Vanguard, sobrou para Von Braun salvar a honra dos EUA, mas havia um problema: Álcool.

O foguete que estavam desenvolvendo, o Juno I era derivado do Júpiter C, um foguete de sondagem por sua vez derivado do míssil Redstone, que usava um motor a álcool, o que era péssimo se tivesse que atacar os russos numa manhã de inverno, fora a dificuldade de achar postos. Ah sim, também não era potente o suficiente para colocar alguma coisa em órbita.

Von Braun precisava de um combustível mais eficiente, e para isso teve que depender de uma jovem rebelde dos cafundós da Dakota do Norte, Mary Sherman Morgan.

Nascida em Ray, uma cidade que no Censo de 2010 aparece com 592 habitantes, meninas e vacas tinham o mesmo destino inescapável: Procriação, mas Mary Sherman resolveu que não seria mais uma do rebanho, e insistiu em estudar, Os pais a deixaram estudar desde que continuasse a ajudar na fazenda, e ela se formou o segundo grau em 1939, ingressando em seguida na Catholic DeSales College em Ohio, estudando Química, não exatamente uma cadeira popular entre mulheres, mas Mary era antes de tudo uma nerd.

Infelizmente um pintor baixinho megalomaníaco começou a bagunçar a Europa, e logo os EUA estavam metidos em um imenso arranca-rabo. Centenas de milhares de homens deixavam seus empregos para ir lutar na Europa e no Pacífico, e as fábricas precisavam continuar funcionando. O jeito era catar mulheres para ocupar as vagas, mesmo as sem muita qualificação. Nessa surgiu o convite para Mary Sherman, até então uma ótima estudante de Química para trabalhar em uma fábrica.

Ela não foi informada qual seria a fábrica, no quê trabalharia nem o quê produziria, e tinha que conseguir uma qualificação de TOP SECRET do governo. Movida provavelmente pela curiosidade, ela conseguiu a carteirinha e se viu trabalhando na Plum Brook Ordnance Works, produzindo explosivos como TNT, DNT e Pentolite. Logo ela estava trabalhando como engenheira química, mesmo sem ter diploma.

Em 1943 aconteceu o impensável na vida de qualquer nerd: Mary Sherman transou, e azarada como qualquer nerd, engravidou. Hoje em dia isso não é grande coisa, mas naquela época ser mãe solteira era complicado, além de todo o estigma social, era demissão na certa.

Todo mundo vivia preocupado com espionagem, e uma moça mãe solteira era alvo fácil de chantagem de agentes nazistas. Mary Sherman seria demitida imediatamente e investigada pelo FBI, mas seu trabalho era tão bom que a direção da fábrica acobertou sua gravidez, e a criança foi adotada por sua prima.

Com o fim da guerra a maioria das mulheres voltou para a vida doméstica, com os homens chegando e tomando os empregos, mas Mary não recebeu o memorando e mandou currículo para a North American Aviation, que a empregou na Aerojet Rocketdyne. Hoje a CEO e Presidente da empresa é uma mulher, a Eileen Drake. Na época Mary Sherman era a única entre os 900 engenheiros da empresa que convenhamos devia ter as piores festas de fim de ano.

Na Rocketdyne Mary foi imediatamente promovida para Especialista de Performance Teórica, ela calculava matematicamente a performance de vários combustíveis de foguetes e mísseis. Um químico comum sabe dizer se algo é explosivo. Um ótimo químico consegue imaginar novos compostos que fazem cabum. Um químico jedi do nível da Mary Sherman consegue calcular a eficiência daquela substância quando usada em um motor de foguete, com uma pressão X, atmosfera Y, dose de oxigênio Z e outras trocentas variáveis. Lembre-se, tudo na mão, não tinha computador pra ajudar.

Na época em que Von Braun estava trabalhando no Redstone, eles usavam como combustível álcool etílico a 75%, igual aos mísseis V2. Daí a velha piada do engenheiro bêbado “Eu consumo mais álcool em 1 minuto do que você jamais vai vender nesse bar fedorento!”  só que embora eu defenda que álcool é a origem e a solução de todos os problemas, não era o bastante.

A Rocketdyne criou um grupo de pesquisa para desenvolver um combustível alternativo. O grupo foi liderado por Mary Sherman. Em uma empresa com 900 engenheiros homens, nos Anos 50, quando o consenso geral era que mulher só servia pra três coisas e pra duas existia diarista, uma mulher comandava uma penca de barbudos. Imagine como os engenheiros explicavam isso em casa.

Os Nerds Também Amam!

A pesquisa deu certo. Mary Sherman conseguiu produzir um composto chamado Hydine, uma mistura de 60% de Dimetilhidrazina Assimétrica (UDMH) e 40% de Dietilenotriamina (DETA). O novo combustível era 12% mais eficiente do que qualquer outro combustível existente, e depois de alguns testes com o Júpiter C, foi usado no Juno I e no dia Primeiro de Fevereiro de 1958 era colocado em órbita o primeiro satélite americano, o Explorer 1. Poderiam ter lançado antes que o Sputnik, em Outubro de 1957, mas só foram acreditar na equipe do Von Braun tarde demais.

Mary conseguiu isso tudo e ainda teve tempo de ter uma família, foi mãe de quatro filhos com George Morgan, um engenheiro da North American. Em casa a família não tinha quase idéia do trabalho da mãe, por causa do segredo envolvido, ela nunca falava nada, para tristeza de George, um dos filhos. Ele conta que quando era criança lançava foguetes no deserto, e se soubesse do conhecimento da mãe na área isso teria poupado muito tempo de pesquisa.\

William Pickering, James Van Allen e Werner von Braun

O lançamento do Explorer 1 é considerado o início da corrida espacial, e sem Mary Sherman Morgan ele não teria acontecido, os EUA demorariam vários meses, talvez anos até desenvolver novos combustíveis e a percepção de que o espaço era dos soviéticos ficaria cimentada na percepção pública.

Ela viveu até os 82 anos, falecendo em 2004, depois de trabalhar muitos anos na área de combustíveis de foguetes, infelizmente suas contribuições não estão listadas em trabalhos públicos, ainda se passarão muitos anos antes que segredos militares e industriais desse nível sejam revelados.


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