
Reza a lenda que entre os anos de 642 e 645, um padre chamado Utta foi enviado para o reino de Kent, no sudoeste da Inglaterra, para trazer de lá, como esposa para o rei Oswy uma rapariga chamada Eanfled, filha do rei Edwin, que havia sido levada para o sul quando seu pai foi morto.
Ele pretendia voltar por mar, e por precaução procurou o bispo local, Aidan, para pedir proteção. O bispo, que mais tarde viraria São Aidano, profetizou:
«Eu sei que, quando embarcarem no navio, encontrarão tempestade e ventos contrários. Mas lembrai-vos de lançar no mar este óleo que vos dou, e o vento cessará imediatamente. Tereis tempo calmo e favorável, que vos conduzirá de volta pelo caminho que desejardes.»
Não deu outra: Tempo piorou, vento onda tempestade, os marinheiros tentaram resistir ancorados, mas em vão. O mar invadia o navio por todos os lados e já começava a enchê-lo de água. Todos compreenderam que a morte estava próxima e prestes a alcançá-los. Então o sacerdote, lembrando-se das palavras do bispo, pegou a ampola e derramou um pouco do óleo no mar. Imediatamente, como fora predito, o mar acalmou-se e o tumulto cessou.fonte
Um verdadeiro milagre, OH GLÓRIA! Salve Jesus!
Ou não?
Prever tempo ruim na Inglaterra não requer exatamente poderes divinos, e o Bispo Aidan, sujeito extremamente inteligente, tinha acesso a livros antigos, consumindo muito do conhecimento acumulado desde a Grécia antiga.
E foi lá na Grécia, em 350 AC que Aristóteles descreveu mergulhadores que passavam azeite em volta dos olhos, o que tornava a superfície do mar mais lisa, melhorando a visibilidade e facilitando a arte de recolher ouriços, ostras ou caquinhos de bilionários.
Com o tempo mais gente foi percebendo esse efeito, e entre marinheiros se tornou comum levar barris de óleo nos barcos. Fora da atividade naval ninguém dava muita bola, marinheiros são mais supersticiosos que os bandidos de Gotham City, mas em 1757 a história chegou a Benjamin Franklin, o José Bonifácio americano, e ele ficou intrigado quando percebeu que durante uma viagem dois navios próximos cruzavam um mar muito mais tranqüilo do que o que ele estava embarcado.
Marinheiros explicaram que os outros barcos usavam Óleo de Tempestade.
Franklin, como bom cientista, resolveu examinar a hipótese de que óleo na água acalma ondas. Em um lago, ele despejou o equivalente a uma colher de chá de óleo. A substância imediatamente se espalhou, e em suas próprias palavras:
«…produziu instantaneamente uma calmaria sobre um espaço de vários metros quadrados, que se espalhou de maneira admirável e foi se estendendo gradualmente até alcançar o lado de sotavento, deixando toda aquela porção do tanque, talvez meio acre, tão lisa quanto a superfície de um espelho.»
E como a gente já disse o santo, nada mais justo que contar o milagre, que se chama Efeito Marangoni, descrito pela primeira vez em 1855 pelo físico italiano Carlo Marangoni.
O que acontece: Quando dos líquidos com viscosidades e densidades diferentes se encontram. O líquido com menor tensão superficial se espalha, formando uma camada de algumas moléculas de espessura.
Essa camada absorve energia das ondas capilares, as marolinhas que se acumulam formando ondas maiores e maiores. Sem as ondinhas, o vento não tem “onde se agarrar”, não transfere energia para a água, e com isso as ondas não chegam a se formar.
Não é magia, não é tecnologia, é Ciência pura, aplicada a um problema real. É algo que alguém muito inteligente, incontáveis Séculos no passado observou, experimentou e ensinou para outros.
Ben Franklin, depois que catalogou seus experimentos, descobriu que marinheiros holandeses usavam a técnica de forma rotineira, com azeite, óleo de baleia e até cerveja (que provavelmente não funcionava muito bem, fora o desperdício).
O truque não funcionava com navios muito grandes ou rápidos, mas era excelente para barcos pequenos, efetivamente reduzindo drasticamente a violência das ondas.
Claro, o Óleo de Tempestade não funciona com ondas grandes já formadas, que espalham o óleo muito rapidamente, mas com uma tempestade no início, ele é capaz de acalmar grandes áreas, gerando uma zona de calmaria entre ondas mortais.

O uso de óleo salvou milhares de vidas, ele era usado por navios para acalmar o mar e lançar barcos de resgate. Era equipamento padrão em botes salva-vidas até 1983, os botes eram equipados com uma “âncora” que nada mais era que um funil com um pequeno compartimento que despejava óleo, aos poucos, o suficiente para acalmar o mar em volta da embarcação.

A exigência foi abolida quando os botes salva-vidas passaram a ser fechados, com menos contato com o exterior, e novas tecnologias de busca, salvamento e localização tornaram raros os casos em que as pessoas ficam perdidas mais que algumas horas.
Mesmo assim, se você tem uma lancha, um barquinho, um veleiro ou mesmo um iate pequeno, tenha sempre algumas latas na dispensa. Camarão frito no azeite fica uma delícia, e pode salvar sua vida.
Fontes:
- Plínio, o Velho – Naturalis Historia (Livro 2) Texto completo (em inglês)
- Beda, o Venerável – História Eclesiástica do Povo Inglês (Livro III, Capítulo XV) Versão em inglês
- Benjamin Franklin – Carta a William Brownrigg (1773) Versão disponível no Founders Online
- Joost Mertens – “Oil on troubled waters: Benjamin Franklin and the honor of Dutch Seamen” (Physics Today, 2006) Artigo completo (Physics Today)
- Peter Behroozi et al. – “The calming effect of oil on water” (American Journal of Physics, 2007) DOI
- Detlef Lohse – “Surfactants on troubled waters” (Journal of Fluid Mechanics, 2023) DOI
- NOAA – “In Some Situations, Ships Dump Oil on Purpose” Artigo completo
- Wikipedia – Storm oil Verbete em inglês
- Deep Sea News – “Pouring Oil on ‘Troubled Waters’” (2010) Artigo
- United States Naval Institute (USNI) – Reimpressão da carta de Franklin Disponível no site da USNI


