Severino’s Wonderful Adventures

Vocês assistiriam um programa mostrando o dia-a-dia de um peão de obra? Ou as aventuras de pescadores da Colônia Z11? Ou o trabalho de construção da Vila do Panamericano?

É, eu também não.

Mesmo a esquerda festiva, que admira o trabalhador braçal com olhos quase homoeróticos, acha lindo mas de longe. Gostam da figura idealizada do Trabalhador, não de seu dia-a-dia.

Então me expliquem: Como os programas mais populares do Discovery Channel envolvem peões de obra, construção civil e pescadores?

A série Pesca Mortal é tão rigidamente estruturada como um filme pornô. Todos os episódios são iguais. Mesmo assim vejo sempre que posso. Outras séries mostram o dia-a-dia de unidades recicladoras de lixo, gente que limpa e inspeciona esgoto e toda série de trabalhos não-glamourosos, que mesmo assim são apresentados como algo curioso e interessante. Até lixeiros já renderam programas legais.

Assim vejamos: O pais-símbolo do capitalismo fez mais para popularizar a imagem do trabalhador braçal, para mostrar seu ofício, para exibi-lo como um sujeito cheio de dignidade exercendo um trabalho necessário e honrado, do que a esquerda brasileira em toda a sua existência.

Devo ter acompanhado mais peões de obra ao assistir o Discovery do que qualquer militante do PCB, e garanto que olhei para eles com muito mais respeito e admiração, pois não os considerava  pobres criancinhas ignorantes políticos manipulados e enganados.

Mas… são peões americanos, espanhóis, mexicanos. Nunca vi um programa nesse estilo com brasileiros.

Acho que a visão paternalista da nossa inteligentzia impede que o trabalhador braçal seja mostrado de igual-pra-igual. O Diretor de Cinema, fazendo seu filme-denúncia mostrando o quanto o trabalhador é explorado pelas empresas malvadas se considera muito superior, jamais poderia mostrar o trabalhador sob uma ótica positiva, muito menos como um profissional capaz e bem-sucedido em seu ramo.

O sujeito abaixo de uma certa renda per capita não tem o direito de ser feliz. Se ele faz um churrasco com os amigos ele está se alienando, se enganando. Se ele diz que é feliz sendo eletricista ou mecânico, ele foi condicionado pelo Poder.

Me poupem!

Eu quero ver um programa desses do Discovery falando do peão da Petrobras que trabalha em plataforma, do sujeito que comanda guindastes em Itaipu, quero ver as histórias dos lixeiros do Rio de Janeiro. Quero ver esse pessoal sendo mostrado como realmente são: Gente normal ganhando a vida.

Quanto aos filmes-denúncia só mostrando a miséria e a desesperança, deixem para exibir nos festivais de Cuba.

O trabalhador brasileiro ganha muito mais quando conquista nosso respeito, não nossa pena.


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Leia Também:

  • Prepare-se Cardoso, vai dar (epa!™) até no Paulo Henrique Amorin, depois que ele citar a Globo 5478 vezes em um Post, ele vai te chamar de golpista :)
    Mino Carta vai inventar a ligação de um extranho de Paris dizendo que o Brasil nunca esteve tão bem…
    Reinaldão vai te elogiar e compara-lo ao Serra…
    E o doido do Olavo de Carvalho vai dizer que tudo é culpa do movimento gay-comunista-unificado que planeja um golpe contra a civilização judaico-cristã
    e a blogosfera politica então retorna a sua normalidade http://www.milfont.org/blog/archives/147

  • É que o programa é em inglish. Tá na minha rede delish. Ser esquerdóide não quer dizer que vou viajar no trem da central das seis.

  • Gandhi

    Isso é assim mesmo… me lembra dos The Beatles que faziam música que iam ao encontro do público ao invés de esperar o contrário (como muita bandéca ainda faz hoje em dia).

    O que importa e sempre importou, é o que acontece AGORA e quem está ligado no que acontece, se dá bem.

    Você consegue perceber o seu pé esquerdo nesse momento? A calça ou bermuda em cima da sua perna?

    Aposto que se eu não dissesse você nem repararia… :)

    Todo mundo visa sempre o mais alto degrau da escada/escala (de qualquer escada) sem pensar ou pensando o menos possível a respeito dos degraus intermediários… e a nossa TV a exemplo vende muito bem um vislumbre do último degrau.

    E se para alcançar seus objetivos precisa muitas vezes criar novos hábitos ou mudar hábitos ruins… Mas quem se esforça pra isso? Tendo os botões do controle da tv ou do mouse tão mais fáceis e práticos?

    Isso me lembra Darwin também… Quem vive agora e consciente se si, vende leite. Quem não é consciente, mama na teta e paga por isso. E ainda acham muito bom, obrigado.

  • Rodrigo IronMan

    Concordo com você. O programa que você esta falando, acho que é "Tabalho Sujo". O programa é bem humorado, mas mostra de forma decente as pessoas que não tem medo de trabalhar, alguns trabalhos são bem cabulosos e 'sujos' mesmo, mas são importantes e o programa sempre mostra isso.

    O Pesca Mortal é bem interessante também, ele mostra o emprego que esta sempre no top 3 das listas de empregos mais perigosos. Como você disse, é sempre a mesma coisa, um trabalho super duro e bem perigoso.

    []'s

  • Eduardo

    "Mesmo a esquerda festiva, que admira o trabalhador braçal com olhos quase homoeróticos, acha lindo mas de longe. Gostam da figura idealizada do Trabalhador, não de seu dia-a-dia." -> Frase de uma perfeição sem limite. Alguém lembra do Lula como operário? Pois é, acho que NINGUÉM lembra.

    Hoje ele diz que é o torneiro mais bem pago do país, quando na verdade ele vagabundou a vida inteira nas costas do PT. É dono de uma fortuna que duplicou durante o primeiro mandato, mas ainda acha lindo a pobreza. Assim é fácil né.

    Eu tenho por princípio defender aquilo que vivo. Aquele que glorifica a pobreza tem que viver nela.

  • Cardoso,

    Não tenho um contato estreito com os Estados Unidos que vá muito além do cinema. Todavia me parece que lá o trabalho braçal é um pouco diferente do nosso.
    Por exemplo se tu assistires ao excelente Terminal de Tom Hanks verá que em determinado momento o chefe do aeroporto pergunta quanto se estima que o personagem de Tom Hanks está ganhando como operário e recebe a resposta de que é mais do que ele, "o maioral" ganha administrando o aeroporto.
    Tenha alguns amigos que se mudaram há pouco para os Estados Unidos e, embora com dinheiro – o marido foi assumir como diretor de uma multinacional – não tiveram condições de fazer a reforma desejada na casa pois lá a mão-de-obra é caríssima. Tanto que há diversos estabelecimentos especializados em "Faça você mesmo".
    Enquanto aqui em Terra Brasilis a situação que vivencio no meu trabalho é de trabalhadores que às vezes não recebem sequer o salário mínimo e de quem é exigido o trabalho por horas além do legal, sem qualqeur contraprestação.
    Isso quando não ocorre trabalho em condições análogas a de escravo, como podes ver nos meus últimos artigos.
    Um grande abraço!!

  • Pra mim a coisa mais surpreendente desse programa – Dirty Jobs, o de pesca nunca assisti – é ver como as pessoas parecem genuinamente felizes e bem ajustadas com suas vidas. Eles têm orgulho de seus "trabalhos sujos", e os realizam numa boa. Parecem bem menos neuróticos, depressivos e mal humorados do que nós, "burgueses". :P

    Eu fiquei com cara de sapato molhado um dia, assistindo um programa sobre pessoas que desenterram uma espécie de vermes do lodo – umas minhocas vermelhas, e vendem. Eu estava olhando eles ali, horas dobrados remexendo no lodo e juntando as minhocas, e eu pensando: "coitada dessa gente".

    Aí o apresentador do programa pergunta pra um dos caras: "Você gosta das minhocas?" E o cara: "Claro que gosto! Elas pagaram por DUAS DAS MINHAS CASAS." ¬¬

    Quem ficou com cara de bundão afinal?

  • Não precisa falar mais nada.
    Aqui, parece que vale a máxima do Joãozinho Trinta "Pobre gosta de luxo, não de lixo" (ou algo parecido). Ninguém quer ver seus trabalhadores braçais, inclusive os próprios, mas o restante curte ver os programas da Discovery, que são bem produzidos e que mostra que não há nada de coitadinhos nessa classe que tem que suar um pouco mais.
    Seria a velha 'síndrome dos vira-latas'?

  • Cardoso, o pior foi o que eu vi no final da novela Paraíso Tropical (assisti e achei uma bosta). A personagem da Beth Goulart se fazendo de vítima por ter, veja só, trabalhado.

    Em determinado momento de reflexão da dita cuja, ela solta umas: "Hoje eu tive que andar o dia inteiro, visitar estabelecimentos comerciais para vender meu produto", com uma cara de que está passando o pior castigo do universo.

    Lamentável!

  • A esquerda precisa da pobreza para existir, precisa sempre grudar no pobre feito uma craca e transformá-lo em vítima profissional. Não admitem o conceito de pobre feliz. Se o trabalhador braçal começar a mostrar sinais de que pode ser feliz com a vida que leva – e principalmente se mostrar que NÃO precisa fazer esse papel de vítima – acaba a razão de ser da companheirada.

    Não conhecia esses programas, vou dar uma olhada.

  • Já disseram tudo, fica um adendo: peão de plataforma da Petrobrás ganha uma baba e anda de carro importado. Os de Itaipu também.

    Já programa com peão brasileiro em geral não daria certo pela falta de dentes e a barba de 4 dias. Brasileiro foge desse tipo de coisa.

  • Muito bom, garoto. Assino em cima, em baixo. Com certeza!

  • Aloha Chefe!

    Parte da cultura e discurso paternalista "Sou vitima mas recebo caridade Sou explorador mas faço caridade".

    Semelhante ao "faz de conta que dou aula faz de conta que aprendo".

    Ou ainda "Político safado mas no lugar dele eu faria a mesma coisa".

    Sobre o programa, novamente, o que falta é produção na TV.

    Programa bem feito é visto.

    Propaganda boa vende.

    Idéias revolucionárias fazem fortuna.

    Blog bem escrito é lido.

    Vide Sorkin e Kubrick. E Cardoso.

    Aloha!

  • Cardoso, você foi citado novamente no PutsGrilo!com

    Abraço, cara!
    http://www.putsgrilo.com/2007/10/02/fique-miliona

  • Engraçado que esse seu post está em quase-acordo com o post de hoje do Cocadaboa. E os dois estão muito bons, :p

  • O engraçado é que ligamos a tv, vemos um assunto, focalizamos no mesmo, adotamos uma idéia sobre ele, esperamos assistir algo que na verdade não é!!! Muito boa a matéria cardoso…
    http://www.blogdoaragao.com |Destaque| Rivalidade entre meios de transportes

  • O que mais mostrou trabalhos assim aqui no Brasil foi o programa Discovery Atlas, mas como era mais diversificado, só mostrou por cima, mas teve de vir eles aqui para isso.
    Ahh, o canal Futura (mais alguem fora eu assiste ele?) tbm tem alguns programas que mostram eventualmente, mas o Discovery é um dos apoiadores do Futura.

  • Clap Clap Clap!

    Excelente texto, Cardoso.

    Ao amigo Marcel Souza, eu não ví a novela, mas ví esse pedaço do último episódio. Sentí nojo daquela cena. A mulher estava CHORANDO, se sentindo acabada, por ter que, veja só, trabalhar 40 horas semanais. Absurdamente ridículo…

  • "Assim vejamos: O pais-símbolo do capitalismo fez mais para popularizar a imagem do trabalhador braçal, para mostrar seu ofício, para exibi-lo como um sujeito cheio de dignidade exercendo um trabalho necessário e honrado, do que a esquerda brasileira em toda a sua existência."

    Baseado em quê você afirma isso? Em meia dúzia de episódios sobre operários que assistiu na tv a cabo? Quão profundo é o seu conhecimento do que a esquerda brasileira fez ou deixou de fazer? Do meu ponto de vista a argumentação foi muito fraca.

    Gosto dos seus textos mas desta vez está, na minha opinião, mais para panfletismo ideológico do que para argumento consistente.

    Abraço!

  • ANDRÉA

    Concordo que é necessário parar de tratar os trabalhadores braçais como pobres coitados, infelizes, incapazes, contudo, é necessário se tomar cuidado para não ir para o outro extremo e fechar os olhos para as injustiças sociais e exploração a que a maioria dessas pessoas estão sujeitas (como lembrou muito bem o Jorge em seu comentário), e achar que está tudo bem, que nada precisa ser mudado.

  • Elder Tanaka

    Cardoso, acho que a esquerda festiva diria que o Pesca Mortal não passa de mera mercadoria, parte da Indústria Cultural.
    Diriam que a Discovery não cria um programa para "popularizar a imagem do trabalhador braçal" ou "para exibi-lo como um sujeito cheio de dignidade exercendo um trabalho necessário e honrado", mas sim para preencher os espaços entre um intervalo e outro, que é onde o canal realmente faz dinheiro enquanto a burguesia se entretém. Se ao menos o operário brasileiro tivesse acesso ao canal para assistir ao programa, vá lá, mas nem isso acontece.
    O que o programa faz, diria a esquerda festiva, é espetacularizar o trabalho humano. Seria, em última análise, a reificação elevada ao quadrado!
    Mas, enfim, são meras suposições.

  • Caro Cardoso, se me permite, meu parabéns.

    Está bastante radical, é claro, mas acho que é esta a proposta do Contraditorium.

    Nesta correria que todos estamos, com idéias já formadas para ganhar tempo, confesso que me fez pensar uns ótimos minutos sobre alguns paradigmas.

    Obrigado e abraço.

  • Acho que é muito mais pela competência do Discovery. Mesmo se repetindo, eles te prendem mto bem!
    =)

  • Pingback: Como iniciar os seus textos: seduzindo! | Carioca no Cerrado()

  • Todo trabalho é essencial para a continuidade de uma sociedade, sujo ou não sujo, alguém tem que fazê-lo, a diferença é que os sorrisos dos operários do tiom sam, sempre serão mais "frequentes" e bem remunerados. E sujeira também é um ponto de vista, por que pode-se fazer muita sejeira sem se quer sujar as mão.

  • Parabéns Cardoso. Ótimo post.