Devo Comparar-te a um Gilberto Braga? Ou: Menos um mimimi anti-Globo no mundo

heminga

Hoje o Mateus Lago fez uma pergunta no Twitter, questionando uma história de que as novelas da Globo teriam um vocabulário de 300 palavras.

Faz sentido, se você seguir a linha do mimimi Globo é malvada, emburrece a população, bla bla bla, ou como diria a menina do Caos, “meus pais são comunistas então não temos hábito de ver tv”.

Na prática, não, não faz sentido. 300 palavras é um vocabulário mínimo, restrito a panicats e alguns vegetais superiores. Mesmo que houvesse essa limitação, nenhum autor que se preza aceitaria trabalhar com tal limite. Tem TODO cheiro de teoria conspiração.

Só que “Isso não faz sentido”, além de kibar o Felipe Neto, não é resposta. Bom-senso não é nenhum indicador de realidade. Vamos então pesquisar.

Em uma Googlada rápida achei o script do primeiro capítulo de Celebridade, do Gilberto Braga, novela exibida em 2004. O texto na íntegra tem 18.066 palavras.

Outra Googlada e achei uma macro do Word que identifica e conta palavras individuais em um texto. Será que 300 é o valor correto?

Nem de longe. Esse capítulo de 18.066 palavras foi escrito com um vocabulário de 2.935 palavras diferentes.

“Ah, mas é pouco”

Não, não é. A média de vocabulário para você ter proficiência em uma língua é em torno de 3000 palavras. MAS, vamos dar o direito da dúvida. Peguemos um texto diferente. No caso Romeu e Julieta, no original em inglês.

São 35.769 palavras, com um vocabulário de 4.172 temos individuais.

A distância entre Gilberto Braga e Shakespeare é de 1237 palavras. Mesmo ignorando que o texto do Bardo é quase o dobro do capítulo, acho a diferença aceitável.

Sonho de Uma Noite de Verão, com 23.688 palavras, tem vocabulário de 3.373 termos. A diferença cai para 435 palavras, tudo que separa Gilberto Braga do maior escritor da língua inglesa.

Portanto, meninos e meninas, fica a dica: Não importa quantas, nem quais palavras você use, e sim como você as usa para contar sua história, passar sua mensagem. Do contrário, você se resume a fazer terrorismo intelectual, como tentaram com o Mateus, que espertamente duvidou do papo de 300 palavras.


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Leia Também:

  • usar número de palavras únicas pra medir qualidade de um texto é algo que consegue a façanha de ser mais estúpido que usar LOC pra medir produtividade de programador. Se for assim haikus e sonetos são a forma mais baixa de literatura, então.

    • Luiz Felipe

      Medir a produtividade de uma fabrica de aviões pelo peso adicionado ao avião.

  • rpvillas

    A melhor prova contra ignorantes são argumentos. Parabéns por dominar essa arte de destruir ideias idiotas.

  • A questão é um tanto mais complexa. Na verdade, o problema de aparecerem "poucas palavras" não é que o texto não está culto o suficiente. Quando produzimos textos, orais ou escritos, trabalhamos em torno de alguns campos semânticos específicos, de acordo com o assunto que estamos falando. Se quiséssemos fazer uma pesquisa científica correta para analisar a qualidade dos textos noveleiros à luz do vocabulário utilizado, uma questão interessante seria observar quais palavras mais são usadas em uma novela x em comparação com uma novela y, assim por diante. Me arrisco a dizer que é bem provável que os campos semânticos fossem bem parecidos, pois os assuntos são bem parecidos. Talvez isso sim demonstre alguma falta de qualidade.

  • E você pelo visto não leu o ultimo parágrafo …..

  • Wagner

    Não que eu ache que um texto bom é medido pelo numero de palavras, mas ao comparar um texto em inglês com um texto em português você está usando medidas diferentes :P.

  • 1k2

    Depois da "denuncia" que a banda do Maurício Ricardo (Charges.Com. Br) teve os instrumentos apreendidos pela polícia federal e hoje eles não tocam nem em "boate gay" (o dia que uma tiver apresentação de banda ao vivo, e tocando rock, me avisem…), não duvido de mais nada. Parecem o Mel Gibson naquele personagem que vê um monte de conspirações nas entrelinhas de uma conversa fútil…

  • Você está certo Carlos, tem muitas palavras diferentes. Mas o "pequeno" problema de roteiro infantolóide para acéfalos continua. Como a mais recente Avenida Brasil. Tudo começa quando uma cabeleireira se apaixona por um jogador de futebol, nossa quanta criatividade. Perplexo, estou. Impossível seguir assistindo uma porcalhada dessas.

    • clever

      Mais realístico é um virus zumbi que surge do nada né, ou dragões habitando os sete reinos, ou ainda uma ilha mágica onde cai um avião… e por ai vai

  • Igor

    Exemplo clássico disso é "Construção", do Chico Buarque. Mesmas palavras. Sentidos diferentes. Genialidade!

  • Acreditar em tudo que se lê ou ouve e de uma ingenuidade atroz e isso pode ser extremamente perigoso.

    • Jura capitão óbvio?

  • Já que se criou essa celeuma a respeito da quantidade e de quais palavras são usadas para escrever um texto, o fato de um texto ser comprido, extenso, usar muitas palavras, dentre elas muitas palavras rebuscadas não quer dizer nada. Alan Sokal e, mais recentemente, John Bohannon que o digam.