O estranho caso da Argentina, a Lei do Lobisomem e o bebê judeu

O estranho caso da Argentina, a Lei do Lobisomem e o bebê judeu

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A Argentina aparentemente tem um grande problema com lobisomens, a ponto de existir uma Lei que ajuda a diminuir a quantidade de casos envolvendo essas estranhas criaturas da noite que brilham no escuro (Eu nunca vi Crepúsculo, mas imagino que os lobisomens sejam tão gays quanto os vampiros)

A origem da Lei e do folclore em volta é, como quase sempre, mais interessante que a própria Lei, e como toda história antiga, é um grande jogo de telefone-sem-fio.

A história ficou famosa em 2014, quando Cristina Kirchner teria virado madrinha de um bebê judeu para evitar que ele se tornasse um lobisomem.

O apadrinhamento foi baseado na Ley 20.843 de Padrinazgo Presidencial, promulgada em 1974 por Isabelita Perón, que não era a Evita. Segundo a Lei, o Presidente da República se tornaria padrinho do Sétimo Filho do mesmo sexo de uma família. O apadrinhamento envolvia uma medalha de ouro e prata, um certificado e embora não constasse na Lei, várias benesses eram dadas ao pimpolho, como bolsas de estudo, pensões, etc.

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A origem disso? Vamos pra bem longe, no tempo e no espaço. Na Rússia Czarista, o Volkodlak, mais tarde vurdulak, era uma espécie de lobisomem ou vampiro, dependendo da lenda. Teria surgido de uma história de Tolstoy, mas também pode ter sido um personagem do folclore adaptado pelo escritor.

Também havia uma tradição do Czar, ou políticos de grande estatura se tornarem padrinhos do Sétimo Filho de um casal, como forma de celebrar fertilidade.

Agora chegamos a algo raro: O momento EXATO em que uma lenda nasce: Foi em 1907, na improvável cidade de Coronel Pringles, na Argentina. Um casal de imigrantes russo-alemães (fronteiras eram voláteis na época) chamados Enrique Brost e Apolonia Holmann escreveram ao então Presidente Jose Figueroa Alcorta explicando que, segundo a tradição eslava, o Sétimo Filho Homem de uma família corria risco de se tornar um Lobisomem, caso não fosse adotado como afilhado pelo Czar ou Presidente.

O pedido foi tão fora do normal, que Alcorta aceitou e se tornou padrinho de José Brost, que segundo todos os registros, não se tornou um lobisomem.

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Vendo que o pedido deu certo, outros imigrantes russos também pediram, e foram atendidos. As crianças ganhavam bolsas de estudos e atenção presidencial, que custava muito pouco e angariava simpatia entre a população.

Perón foi padrinho de 1982 crianças, mesmo sem ser supersticioso, ele gostava da brincadeira. Quem não gostava eram as crianças paraguaias. A lenda do Sétimo Filho virando lobisomem migrou para o país vizinho, onde a mitologia Guarani transformou o Lobisomem – Lobizón em espanhol, no Luisón, uma espécie de cachorro-porco que ronda cemitérios e come cadáveres.

É um caso fascinante de etimologia de duas vias. O nome Luisón vem obviamente do espanhol Lobizón, mas a “forma” da criatura foi adaptada aos poucos pela literatura, se tornando mais e mais lobisomem.

Quanto às crianças paraguaias, o problema é que na falta das adoções, as famílias matavam os sétimos filhos na base da pedrada, para não virarem Luizónes. O país acabou adotando a solução argentina para prevenir infanticídio.

Em 2009 Cristina Kirchner expande a Lei para apadrinhar crianças de outras denominações, até então somente católicos estavam aptos a se proteger da maldição do Lobisomem.

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Milei foi padrinho de várias crianças, inclusive Ezequiel Efraín Blanco, que não era exatamente criança, deu entrada no pedido nos Anos 90, ainda bem que a maldição do Lobisomem pelo visto demora a se instaurar.

Até o momento, a Lei do Lobisomem ainda está em vigor na Argentina, mas um decreto de abolição de leis obsoletas já a lista, em breve ela deixará de existir. Resta saber se a população vai aceitar. O mais provável é que continuem pedindo aos Presidentes para apadrinhar seus sétimos filhos, e políticos sendo populistas como são, nenhum vai se negar.

Conclusão:

Temos uma Lei que formalmente não fala sobre lobisomem, mas é sobre lobisomem. Temos uma tradição da Rússia czarista que ninguém conseguiu associar à Rússia czarista.

Temos um mito paralelo envolvendo sétimos filhos, o Luizón, que pode ou não ter sido inspirado pelo lobisomem europeu, e temos uma família que pediu um apadrinhamento e pode ou não ter envolvido lobisomens na história. Disso tudo tira-se como histórias e tradições são entrelaçadas, confusas e cheias de variantes. Nenhuma história é monolítica, nenhuma história tem final.

Fuentes:

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