Da Xenofobia Linguística e das Conclusões Precipitadas

dmz.jpgExiste um sentimento imediatista muito comum no brasileiro que nos faz pensar que Idiomas são coisas prontas e acabadas, citamos o exemplo francês como algo a ser seguido, e reclamamos da “invasão” do português por palavras americanas (o antiamericanismo endêmico nos impede de reclamar de palavras invasoras de outras etnias). A graça é que esse sentimento acaba cegando mesmo pessoas inteligentes, como o Bernardo, do Bernabauer.

Neste post ele comenta um artigo meu, e critica o uso do termo “monetização”, com as seguintes palavras:

Então na segunda semana da blogosfera um dos temas mais importantes foi o da ‘monetização’. Odeio este termo por que tem origem na palavra money. O termo deveria ser ‘dinheirizar’ ou algo parecido…

Concordo plenamente com o exagero dos modismos, gente que usa upar e printar ao invés de subir ou imprimir demonstra apenas falta de vocabulário, mas isso não é erguer um muro contra o crescimento do idioma. Línguas crescem e evoluem por aglutinação e incorporação de outros termos. Todo mundo aprendeu que “alface” é de origem árabe, assim como “sutiã” é de origem francesa e folclore é de origem anglosaxã. Quando exatamente foi baixada uma moratória impedindo novos termos? Quem usa Tempura sabe que o termo japonês tem origem no português tempero?

Os franceses se deram mal com essa, durante um tempo fizeram uma campanha nacional contra o uso do neologismo Computeur, por ser “macaqueação dos ingleses”. Impuseram Ordinateur. Os ingleses ergueram a cabeça da leitura do Times e entre uma bicada no chá, disseram: “Desculpem, mas Computer não é invenção nossa, vem do Latim computare, se vocês não reconhecem as origem de sua própria língua, problema seu” e voltaram para sua leitura.

No Brasil tentaram, durante o auge da xenofobia da Reserva de Mercado, transformar software em logiciário, coisa que obviamente não pegou.

Ao dizer que “monetizar vem de money”, o Bernardo está cometendo uma injustiça com os dicionaristas, com o pessoal do Fundo Monetário, com a Casa da Moeda e até com o Federal Reserve Bank. Segundo o Dicionário Online de Etimologia, “money” vem do francês arcaico moneie, que por sua vez vem do Latim moneta, que significa moeda.

Aliás, segundo o Dicionário da Língua Portuguesa Online, monetizar vem do francês monétiser. Assim, Bernardo, se você quiser continuar odiando o termo monetizar, odeie-o por sua origem francesa. Muito tempo atrás. Antes até do primeiro governo Bush.


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Leia Também:

  • Há uma guerra tão ridícula sobre os anglicanismos em todos os lugares. No Orkut (que não sirva de referência para nada) tem uma turminha que vive em uma ilha chamada lingua portuguesa e se sentem invadidos cada vez que se fala a palavra mouse, software, ou upload ou download…

    Para mim, estrangeirismos são consequência de algo maior, como a globalização. Quem sabe, daqui muitos e muitos, muiiiito anos, não estaríamos falando a mesma lingua?

    Abçs

  • Acho difícil, pois nem mesmo dentro dos próprios países há uma unificação. São muitos sotaques e vocabulários que mudam até de cidade para cidade. No final, só perde quem se isola.

  • É, não da para generalizar. Duvido que essas pessoas não usem Nike, Adidas, não comam no Mc Donalds, etc…

    Radicalismo sem sentido.

  • Tiagotb

    Nâo vejo sentido nenhum em falar que estamos sendo "invadidos".

    Afinal se a lingua de qualquer país não mudasse, tão como pegar palavras de outro país, ainda estariamos falando que nem os homens da idade da pedra…

    A linguagem tem que evoluir como a tecnologia… Podemos até considerar a linguagem como uma tecnologia =]

    Até mais

  • Que coicidência cara, fiz um resumo de um artigo sobre isso esses dias na faculdade!

    Legal!

    Concordo com o fato de que nossa língua é inacabada, sempre.

    E o pessoal não precisa temer os estrangeirismos, se for conveniente eles serão adaptados para o português ou substituidos por outros termos.

    É só lembrar que antigamente o pessoal falava corner, goal keeper, etc….e hoje é tudo escanteio, goleiro, centroavante(center-forward), etc

  • Só um adendo Cardoso, a palavra Tempura vem de "ad tempora cuaresmae" que quer dizer "no tempo da quaresma".

    Era a época em que os navegantes portugueses passavam sem comer carne vermelha e comiam peixe preparado no Japão da forma que mais tarde se transformaria no Tempura.

    A respeito do post, concordo que não existe problema algum em usar certas palavras que não existem no nosso vocabulário, só acho exagero certas coisas. Por exemplo "on sale", não seria muito simples colocar "promoção"? Outra que os blogueiros adoram, nada contra, mas acho exagero colocar heavy-users, são palavras que não vejo a mínima chance de evoluir e se transformar.

    Dado o recado. Abraços.

  • Tem gente que briga com unhas e dentes pra "salvar" bem a nossa lingua, mas de fim de semana, adora se fazer de Americanizado. E sempre será…

  • Nem oito nem oitenta :-) Se por um lado devemos evitar a xenofobia linguística…também devemos buscar a acessibilidade linguística!

    Review quando existe "resenha" post quando existe "texto", entrada, etc… é um pouco de "encontro da babaquice com a arrogrância", como >argumenta o Luis de Moraes!

    É óbvio que exageros de ambas as partes vão ocorrer :-)

  • Sergio, minhas fontes são diferentes, veja no LinguistList.org por exemplo. A definição de ser um termo relativo à quaresma existe na Wikipedia, que como sabemos não é uma fonte lá muito confiável. Já a definição de "tempura" tendo sua etimologia em "tempero" está, por exemplo, em:

    KIM, Tai Whan. 1979. Etymological and semantic notes on Ibero-romance words in Japanese. Arquivos do Centro Cultural Português. Paris: Fundação

    Calouste Gulbenkian. vol. xiv. 697pp. p.579-621.

    A história dos missionários me parece fantasiosa, dado o custo da carne no Japão, me parece difícil que eles comessem muito bife mesmo fora da quaresma.

  • Eu continuo não gostando do termo monetizar, mesmo não tendo origem em 'money', mas não tenho nada contra a idéia deste termo. Espero que isso esteja claro, assim como espero que com o tempo consigamos traduzir este termo para o português no futuro.

    E quem quiser ler o artigo que o Cardoso cita pode fazê-lo aqui.

  • Meu caro, não há o que traduzir, o termo monetizar É uma palavra da língua portuguesa, consulte seu dicionário.

  • Cada um que me aparece, traduzir "monetizar" essa é ótima..

  • Pingback: bernabauer.com - Ganhando dinheiro com blogs()

  • Puts, neste artigo vc disse quase tudo que penso sobre uso de termos de outors idioms no nosso. Nao existe nenhum "portugues 2.0 final version"…. pensar que ja é a "versao final do idioma", é um erro.

  • Oi gente,

    Se me permitem repetir as palavras do Sérgio Lima acima, nem tanto, nem tão pouco.

    Etimologicamente, monetizar é um termo correto, faz parte da língua portuguesa e possui uma grafia inteiramente portuguesa também, ou seja, uma pessoa que o mínimo de alfabetização pode escrever a palavra apenas ouvindo-a.

    É lamentável que os argumentos de Bernabauer deixaram de ser mais eficientes devido ao tom em que ele escreveu o artigo e pela falta de fundamentação etimológica. Eu também acho perigoso quando um argumento é iniciado por frases do tipo "deveria ser", pois causa o efeito negativo que causou.

    Entretanto, o argumento de Bernabauer abre uma consideração ou questionamento importante: qual seria a maneira mais fácil de popularizar um conceito como "monetizar"? Na minha humilde opinião, já que o termo pode ser escrito como se fala (mesmo com "s" ou "z"), o segundo passo a seguir é divulgá-lo para que seu significado seja absorvido.

    Entretanto, dentro do ponto de vista de comunicar significado por sí só, termos como o sugerido por ele, "dinheirizar", ou, se posso também sugerir um termo que eu julgo ser ainda mais fácil de entender e que já se encontra no Dicionário Aurélio, "endinheirar", diminuíriam bastante a quantidade de viagens a dicionários pelo Brasil todo.

    Eu não estou sugerindo que nenhum dos termos seria melhor, pois "monetize o seu site", "dinheirize o seu site", ou "endinheire com o seu site", são ainda menos claros que "faça dinheiro com o seu site", o que no final das contas é a mensagem que se quer passar. O único problema é que esta última frase já está tão batida e usada por tudo que é esquema de ficar rico rápido pela internet que, de fato, uma empresa querendo re-aplicar o conceito no mercado talvez desejará buscar um outro termo, talvez menos acessível e claro, como "monetizar" para se diferenciar do resto. É a velha batalha entre equilibrar necessidades linguísticas com objetivos de marketing, e não há nada de mal nisto.

    O que nós, produtores de conteúdos, talvez precisemos prestar atenção é no processo para se chegar a estes termos. A questão do uso da palavra software ou logiciário não ilustra bem este processo, nem é um exemplo de preocupação pela acessibilidade linguística. Se você é um distribuidor de software para grandes empresas, o termo software pode lhe servir bem, mas se a sua intenção é vender softwares para o grande populacho e pequenos empresários, termos como "programa de computador" e "aplicativos" podem lhe servir muito melhor.

    Uma pesquisa na ferramenta de palavras-chave do Yahoo! Overture revela:

    1. Número de pessoas que buscaram por "software" ou frases contendo o termo na busca, os 5 maiores no mês de Julho:

    102485 software

    24502 software antivirus seguranca

    14695 software jogo cdrom

    11229 software sistema operacionais

    10401 software manutencao

    2. Número de pessoas que buscaram por "programa" ou frases contendo o termo na busca, os 5 maiores no mês de Julho (depois que limpei pesquisas dúbias como "garotas de programa"):

    25230 programa

    6373 programa para baixar musica

    5536 programa hacker

    4577 arquivo de programa

    4548 baixar musica sem programa

    3. Número de pessoas que buscaram por "aplicativo" ou frases contendo o termo na busca, os 5 maiores no mês de Julho:

    5871 software aplicativo utilitario

    5675 software aplicativo utilitarios

    2444 software aplicativo

    2165 aplicativo

    1056 aplicativo utilit�rio software

    Como se vê, outros termos em português como "aplicativo" e "programa" ainda são usados popularmente por usuários.

    Considere que estamos falando de um contexto de internet predominantemente de classe-média e alta. Quem saberá que termos ganharão ainda mais espaço quando mais gente das classes mais baixas passarem a utilizar a internet com mais frequência? Se analisarmos a tendência de nomes mais específicos (programa de quê, software de quê) as coisas começam a pender para o outro lado, como na predominância entre os termos "games" e "jogos":

    1. "Jogos", mês de julho, os 5 mais buscados:

    1064205 jogo

    215310 jogo online

    116262 jogo gratis

    68085 jogo de videogame

    57280 jogo on line

    2. "Games", mês de julho, os 5 mais buscados:

    293956 game

    21313 game online

    21095 video game

    10106 game gratis

    9088 game on line

    Bem, como se pode ver existe menos gente usando "games" que "jogos", entretanto ainda assim existe gente buscando por "game".

    Seria totalmente estúpido deixar de lado esta minoria por caprichos linguísticos, afinal de conta são de minorias que os mercados de nicho são feitos, mas também seria vacilo não considerar que por uma razão ou por outra é mais fácil que os nossos usuários façam uso da palavra jogo que a sua variante em inglês.

    Eu tenho notado que alguns defensores mais ardorosos do idioma português pulam para conclusões sobre o que seria os melhores termos para o mercado de fala portuguesa, ao invés de buscarem saber com o povo como eles preferem ou acham mais fácil descrever esta ou aquela coisa. Por causa desta atitude unilateral e altamente ditatorial, alguns tecnólogos chegam a pérolas como "logiciário", sem nenhuma consulta ou pesquisa "popular".

    Por outro lado, também é cego por parte de quem defende a expansão do idioma português, sem nenhuma consideração ao grosso do mercado que não fala ou entende inglês, decidir que o que vier está bom para o nosso idioma, baseando-se apenas no fato que eles mesmos e um grupo minoritário de poliglotas entendem bem estes termos.

    Há muita gente confundindo estrangeirismo, ou o curso natural da língua portuguesa ao incorporar termos estrangeiros e aportuguesá-los, com injeção burra de termos estrangeiros. Um exemplo disto é a enorme quantidade de gente que ainda diz "browser", "homepage" e outros termos completamente desnecessários em páginas em língua portuguesa. A idéia aqui não seria aproximar, ao invés de rechaçar?

    O exemplo dos termos de futebol coloca isto de forma ainda mais clara, à medida que foi se estabelecendo que o esporte não era um esporte de ingleses e aristocratas brasileiros (quem conhece a história de nosso futebol sabe que os poucos jogadores negros chegavam até colocar pó de arroz para parecerem brancos, de tão elitista e racista que era o esporte quando começou no Brasil), mas um esporte do povão, que até hoje mantém a renda dos clubes comprando ingressos e camisas de time. Foi aí que se deram conta que deveriam utilizar os termos que os "pretos" estavam usando enquanto jogavam com suas bolas de meia em campos de futebol improvisados nos fundos de quintais e portões de garagens, ou seja, quando os "sobrinhos" tomaram conta do mercado, jogando melhor futebol que eles mesmos.

    Quando os primeiros clubes se deram conta, o mercado de nicho já estava tomado por vários clubes populares por todos os cantos do Brasil.

    Em certo sentido, a falta de visão dos primeiros clubes de futebol brasileiros permitiram que o nosso futebol germinasse livre e organicamente onde estava o potencial futuro de nosso esporte popular: nas favelas, nas roças, entre os tabaréus e os negros. Foi aí que o dinheiro começou a rolar mesmo, jogando como o povão e falando a língua deste, não o contrário.

    Se me permitem algumas indicações minhas mesmas (o velho jabá), e já pedindo desculpas por fazê-lo, eu disponibilizei um especial sobre acessibilidade linguística para produtores de conteúdo on-line, resumindo conceitos e experiências que obtive lidando com produção de informação no Brasil, Espanha e Reino Unido:

    Elementos da acessibilidade lingüística e cultural

    Como de costume, estou sempre aberto a sugestões e críticas de nível dos colegas.

    Um abraço para todos,

    Luis

    Revista Webalorixá
    http://www.webalorixa.net

  • O cara escreve um artigo completo, enriquece meus comentários e ainda pede desculpas? Eu adoro meus leitores ;)

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  • Se os franceses se preocuparam em preservar os usos da sua linguagem é menos por uma questão estritamente linguística do que pelo conservação cultural. A língua é a base mais sólida da cultura de um povo e seu caráter dinâmico confere-lhe uma volatividade tolerável. Contudo, num país preocupado em manter sua identidade cultural é imprescindível um certo controle (cultural) dos estrangeirismos, não apenas linguísticos. Por isso mesmo a França limita a quantidade de filmes americanos exibidos nos cinemas.

    É verdade que esta preocupação pode produzir uma patrulha ideológica que em casos extremos transforma-se num grupo xenófobo. O bom senso, portanto, é vetor que deve orientar estas preocupações que, embora pareçam triviais, são indispensáveis num país que trata tão mal sua cultura — uma cultura riquíssima, diga-se de passagem.

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  • Da primeira vez que fui usar essa palavra em meu blog também fiquei na dúvida se não era um aportuguesamento (essa existe) de "monetize", e pra minha surpresa essa palavra existe em dicionários brasileiros desde o século retrasado.

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