Sobre youtubeiros racistas nazistas e jornalistas delirantes

Muitos anos atrás, quando blogs eram a coqueluche do momento (se você não conhece a expressão, não se preocupe, os anti-vaxxers estão trabalhando pra ela voltar à moda) eu recebia toda hora propostas de Parcerias Caracu. Em geral queriam que eu migrasse o Contraditorium para algum portal, e em troca ofereciam basicamente hospedagem. 

Um belo dia fomos surpreendidos com a notícia de que a Abril estava entrando no mercado de blogs. A Abril Blogs seria a grande plataforma, e vários blogueiros famosos estavam sendo convidados para migrar seus blogs pra lá. Devem ter começado de baixo pra cima, pois meu convite não chegou a chegar, mas eu entendo.  Logo no começo vazou uma conversa de email entre outro blogueiro famoso, que perguntava com todas as letras: E o larjan? A grama, a bufunfa, o filó, o calaboca?


Para saber mais sobre o Affair Abril Blogs:


 

O cidadão da Abril Blogs respondeu que não havia remuneração financeira nem participação na publicidade veiculada no blog (pela Abril) e que o simples fato do blog estar associado à editora transferiria prestígio, credibilidade, etc. AH sim, todo o seu conteúdo passaria a ser propriedade deles.

Eu como não valho nada criei um blog na plataforma, escrito em Miguchês e com tema de Hello Kitty. Se tornou o blog mais popular do site até a Abril me limar das estatísticas.

Isso foi no longínquo ano de 2008. Hoje percebo que a grande mídia não mudou, ainda não aprenderam NADA sobre como a Internet funciona. Isso ficou evidente com o caso do tal Pewdiepie.

Resumindo pra quem tem mais o que fazer: Pewdiepie é o YouTubeiro mais popular do mundo. Ele tem 53 milhões de assinantes. O motivo? Realmente não sei, assisti alguns vídeos e ele não fala nada com nada, é uma imensa egotrip autoalimentada, ele é um oroboro. É um Tostines, tem 53 milhões de assinantes pq todo mundo quer saber pq ele tem tanto assinante.

Ele se envolveu em uma polêmica ao usar um daqueles sites onde o sujeito topa tudo por US$5,00 e de zoeira instigou dois indianos a posar com uma placa “morte aos judeus”.

Quer dizer, eu acho que são indianos, esse caso me entediou tanto que não vou me dar ao trabalho de pesquisar, e de qualquer jeito vindo do povo que inventou a suástica é mais divertido.

Pedir morte aos judeus tem sua hora e lugar, pega mal se não for em Teerã, Gaza ou arredores, e em termos de cronologia entre 1939 e 1944 é a melhor época. Fora isso é algo sem-sentido sem nenhum resultado prático e, acima de tudo, sem graça. Pois é, lamento informar mas o único crime do Pewdiepie foi fazer uma brincadeira sem-graça, mas isso não impediu a mídia de começar uma cruzada contra ele.

Até os SJWs, que cagam e andam pra judeus agora se ofenderam por procuração, como era se se esperar. O Pewdiepie fez um vídeo-resposta, basicamente dizendo que não era nazista supremacista branco (d’oh!) mas isso não importa para este texto. A melhor parte veio no Twitter, onde o Pewdiepie tem apenas 9,3 milhões de seguidores.

Isso mesmo que você leu. Jornalistas do Wall Street Journal foram até a casa dele pra oferecer “uma chance e uma plataforma para se defender.” Não estão pedindo uma entrevista, estão “oferecendo uma plataforma”, um gesto magnânimo e grandioso, que na prática é uma forma de pedir uma entrevista sem parecer que estão pedindo.

A arrogância do WSJ conseguiu superar a finada Abril Blogs. É… assustador. Vamos ver alguns números: No canal do Pewdiepie, com 52 milhões de assinantes ele subiu um vídeo uma hora atrás. Já tem 464 mil visualizações. O vídeo que ele enviou ontem tem mais de 7 milhões.

Quanto ao Wall Street Journal? Segundo a Wikipedia a circulação é de 2.3 milhões de exemplares.

De um lado temos um sujeito com 53 milhões de assinantes, que consegue 7 milhões de visualizações em um dia. Do outro um jornal, impresso com 2.3 milhões. Não parece que o Wall Street Journal entenda, mas não estão em posição de oferecer nada.

“Ah mas tem que ver que a audiência do WSJ é qualificada…”

Bzzzt errado. Primeiro, ao Pewdiepie interessa falar com SUA audiência, seus assinantes, deixar claro que a mídia está exagerando e mentindo. E nada é mais eficiente do que ele falar diretamente com essa audiência. O Wall Street Journal não tem nem em sonho tanta penetração.

Segundo, caímos no paradigma do Jornal Nacional. Faz mais sentido anunciar no intervalo do JN, mesmo que só uma fração dos espectadores sejam seu target, do que passar um mês montando um plano de mídia com emissoras de TV a Cabo com 1200 espectadores simultâneos. É o que os russos fazem na Síria: Ao invés de gastar caras e escassas munições de precisão, usam o bom e velho Carpet Bombing.

Não importa que você bombardeie o vilarejo inteiro se o terrorista imaginário acaba morto e você pode estampar o sucesso nos jornais de Moscou. Da mesma forma depois que você atinge um certo número de espectadores, a mídia segmentada deixa de fazer sentido. E não é só pela quantidade de gente que você atinge diretamente.

Digamos que eu tenha uma meta: Atini atingir 20% de um segmento pequeno mas específico, digamos médicos associados ao Boston Medical Group que topem permutar consultas por publieditoriais. Faço um excelente trabalho de mídia, anuncio nos sites e programas específicos, cumpro a meta. The End, não passou disso.

Se eu concentrar minha verba (e ela for suficiente) pra uma ação de massa, e se a ação for bem pensada, eu anuncio em um veículo de grande circulação, tipo um daqueles vlogs sobre o nada, ou um Não Salvo da vida, e minha mensagem irá se espalhar. As pessoas vão querer saber do que diabo as outras estão falando, e logo o assunto está bombando nas interwebs. Vou atingir meus médicos, ultrapassar minha meta e as pessoas se encarregarão de compartilhar com os amigos (e inevitavelmente alguns serão médicos) minha propaganda.

A Velha Mídia estava acostumada a ser detentora desse poder de mobilização, mas isso acabou. Hoje indivíduos possuem essa capacidade. Lembre-se, os Twits de Trump são mais temidos que suas Medidas Provisórias. Mesmo com todo o linchamento midiático, Pewdiepie está ganhando assinantes, depois do ataque inicial.

Fonte: Social Blade, dica excelente do Gabriel do Tuinto.

A mídia ainda não entendeu, mas nós não estamos mais à mercê deles, se você quer uma entrevista PEÇA uma entrevista, não chegue se achando o Mago Supremo das Fodências oferecendo magnânimo seu incrível veículo para que o pobre coitado possa se defender.

A velha mídia é bem-vinda na Internet, ela tem toda a experiência e o know-how que falta a todo mundo que começou batendo cabeça, Jornalistas de verdade têm recursos contatos e jogo de cintura para dar voltas em torno de qualquer blogueiro, mas é preciso que entendam de uma vez por todas como a Internet funciona, senão continuaremos ridicularizando casos como esse de hoje.

É simples assim, queria mídia. Nossa relação com vocês é a mesma de Rorschach com os presidiários em Watchmen:

Nós não estamos presos aqui com vocês. Vocês estão presos aqui com a gente.


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Leia Também:

  • Caramba, alguém ainda usa o pobox.com :D

  • gfg

    hahahahaha, descreveu perfeitamente a quantidade de assinantes do canal, uma especie de precursor do efeito gangman style. Porque de conteúdo dos videos que assisti não tinha nada.

  • O cara tem 53 milhões de inscritos e eu só tomei conhecimento dele depois de um vídeo do André falando sobre os youtubeiros chiliquentos em que ele citou a figura aí.

    Aliás, até a atual gerente do YouTube, até assumir o cargo, jamais tinha ouvido falar do distinto – http://youpix.virgula.uol.com.br/youtube/youtube-show-me-the-money/

    • doorspaulo

      Não somos o público alvo dele, simples assim.

      Chuto que, assim como eu, você deve ter mais de 30 anos, preferir ler textos a assistir vídeos.

      Gostamos de conteúdo real, não um cara gritando loucamente por causa de uma porta rangendo em algum jogo aleatório.

      • Acertou em cheio.

  • Gaius Baltar

    Será que se Watergate acontece hoje em dia Woodward e Bernstein usariam o Garganta Profunda ou apelariam para o Wikileaks?