O medo não é dos blogs, é dos leitores

Estava matutando sobre a birrinha de sempre de alguns jornalistas (mea culpa: vamos parar de generalizar, há excelentes jornalistas que não morrem de medo do Futuro)  e percebi que há dois fenômenos diferentes acontecendo aqui:

Um são os veículos, que demoram muito a entender as mudanças tecnológicas, principalmente quando são acompanhadas de mudanças sociais, comportamentais. Essa coisa de mídia colaborativa pegou todo mundo de surpresa.

Outra coisa são os profissionais. Assumindo que sempre haverá espaço para gente boa, o que leva alguns representantes dessa gente boa (notem que estou excluindo os medíocres. Não me culpem, reclamações com C. Darwin) a ficarem tão presos a um modelo arcaico?

Existe o fenômeno do pedestal, é muito bom o cara pagar um de Bozó, dizendo “trabalho na Globo”, “Escrevo pra Folha”, etc. Mas será isso mesmo o único motivo para essa birra com a Nova Mídia?

O grande problema com a nova mídia é que ela é de mão-dupla. E bota a cara na janela.  Nos velho tempos (ou ontem, se você trabalha no Estadão) era fácil esconder-se atrás da fachada da empresa, toda a responsabilidade ia para O Jornal. Da mesma forma todas as críticas são devidamente filtradas.

Não como blogs, onde em geral, caso o sujeito não xingue nossa mãe, deixamos o comentário no ar, por mais idiota e ofensivo que pareça.

Comentários de blog devem parecer um horrível pesadelo para quem edita sessão de cartas de jornais, onde os textos são escolhidos a dedo, cortados, mutilados (ou “editados”, como dizem) e dependem da ENORME boa-vontade de alguém, para ir ao ar.

Já nos blogs não há esse controle. Mais ainda; na INTERNET não há esse controle, daí o medo da Grande Mídia e dos Maus Profissionais. Aqui eles podem ser criticados abertamente. Se um jornalista fala uma besteira no Globo, fica por isso mesmo, exceto se for algo MUITO grande. Se um blog fala alguma besteira, meia-dúzia de leitores aparecerão apontando o erro.

E jornalista ODEIA ser pego de calças arriadas, estamos cheios de exemplos onde discreta e silenciosamente corrigem textos, sem admitir o erro anterior. Acho que o recurso tipográfico indicativo de correção é mundano demais pra esses sites sérios.

Não percebem que estamos no mesmo barco. NÓS dos blogs vivemos a mesma realidade. Somos patrulhados, no bom e no mau sentido o tempo todo. Estava conversando outro dia com o Beto Largman, e ele estava preocupado com a credibilidade dos blogueiros. Expliquei que não precisava se preocupar, nós somos muito mais vigiados (no bom sentido) do que a velha mídia, que já é considerada corrupta por natureza, e de onde nada se espera é que não sai nada mesmo. Nossos leitores nos encaram como uma alternativa a uma mídia repleta de vícios e práticas questionáveis. Isso é bom. Mesmo quando é ruim.

Esse mundo onde todo mundo é questionado o tempo todo, onde não importa se você é O Maior Jornal do Pais, desde 1891, onde importa apenas a coerência da sua notícia, e onde sua credibilidade está em jogo a cada texto, esse mundo não é atraente para todos, mas esse é o mundo do futuro, e o futuro está na esquina, já.
O que os dinossauros temem, eu percebo, não é a concorrência dos blogs, mas os leitores, que estão descobrindo que é muito melhor um relacionamento de mão-dupla do que a velha mídia que se acomodou em sua posição de arbusto flamejante escrevendo em uma pedra com raios.*

*Eu sei que na versão bíblica do mito não há raios, mas a imagem do filme do Charlton Heston é muito melhor.


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  • É como o título da música do R.E.M., é o fim do mundo como conhecemos. O mundo está se espatifando em bilhões de opiniões, esse será o grande desafio, bilhões eu disse… se os melhores serão escolhidos é uma certeza, só que os bilhões que ficam de fora ainda estarão olhando. Blogs e Jornais não são a mesma coisa, mas se completam e para uma notícia teremos milhões de pessoas escrevendo e opinando, é a era da credibilidade da opinião (será que exagerei?), não uma opinião solta e sem fundamento e sim com lógica mesmo que tenha sido tirada de um jornal. É preciso ter bom senso com o que lemos em jornais e em qualquer outro veículo, como blogs por exemplo.

  • Muito boa a matéria cardoso, estou aqui dando uma de minhas passadinhas diárias!!! Até mais =DDD
    http://yeoow.blogspot.com

  • Foi o texto mais sóbrio que li a respeito.
    Concordo plenamente com o que você disse, sobre os blogs serem uma alternativa à mídia "padrão". Os blogs denunciam e põe a cara a tapa, diferente dos jornais, que se escondem atrás de cortinas de "boas relações". Como exemplo posso citar uma certa emissora, que durante a ditadura militar, divulgava diversas receitas culinárias, escondendo os importantes acontecimentos da época; e agora, a mesma editora decide passar uma miini-série sobre o período.
    É aquela velha história (que felizmente não vale para os blogs): Navegando conforme a maré.

  • Concordo com você…

    Mas ainda acho que, pelo menos a curto prazo, um não substitui o outro…

    Mas porque insistir nesse assunto? Não acho que isso tenha que ser levado tão a serio. Se caso tenha jornalista de mal com blogueiros deixem eles lá. Um dia irão entender. Ou não.

    Ficar dando moral para essa briguinha não nos levará a nada.

  • Hugo

    Pois é, concordo com você. Mas também já tive meus comentários em blog censurados por ter feito alguma crítica ao texto do autor ou ter corrigido algum erro dele. O que mostra que tem muito blogueiro aí que também não gosta de ser pego de "calças arriadas".
    Talvez, para alguns, seja melhor até nem permitir comentários…

  • Oi Cardoso beleza?

    Cara não penso que haja medo na mídia. Acredito que a resistência ao formato blog é de propósito. Se bem que até o Estadão já adotou blogs então eles estão em uma fase de "cuspir no prato que comem".

    Jornalistas e jornaleiros não são bobos, eles foram no passado o que somos hoje. Outro detalhe que até gosto de destacar e citar baseado até na sua experiência é que os blogários que possuem maior êxito são originados desse meio: comunicação.

    Muita luz aí… abraços…

  • "E jornalista ODEIA ser pego de calças arriadas"
    Creio que não somente jornalista, mas qualquer profissional de qualquer meio odeia ser pego de surpresa, bem como a população em geral. O que muda, é como a pessoa/profissional lida com isso.

  • Em primeiro lugar, parabéns. Em segundo, taí uma discussão que não leva a nada. Cada vez que saio para jantar/almoçar com a família – que não é desconectada, diga-se – descubro que os "jornalistas" (não são todos, sabemos) padecem do mesmo mal que assola uma boa parte da população: desconhecimento de causa. Em enquete simples hoje à noite, em torno da pizza com cerveja, descobri que 80% das pessoas não conhecem quase nenhuma das ferramentas que usamos. Nem sabem que existem, diga-se. E ainda perguntam "o que é blog?"… ai ai ai. Vamos bem.
    Para mim, a questão não é blog x jornalismo. Isso foi um belo tiro no pé disfarçado de marketing. Trata-se, isso sim, de uma nova forma de usar a internet e as suas ferramentas – e os blogs são apenas uma destas ferramentas. A gente sabe (graças ao C. Darwin) que boa parte do que está sendo criado hoje desaparecerá depois de amanhã… E eu tenho a sensação de que em cinco anos a face da web será absolutamente diferente. Onde vamos chegar com esta pinimba de m*? Jornalista chato invadindo lista de blogueiros – onde a regra era reclamar da chatice – e consegue toda atenção do planeta. Gosto mesmmo é da tua reação, que produz ums série de posts maravilhosos sobre o tema. Que me fazem sair de lá do leitor de feed e vir aqui escrever um quase-post… fala sério! Blogar é mesmo o máximo. Não há notícia em meio "tradicional" que faça isso :D

  • Hugo, a diferença é que nos blogs (exceto os questionáveis) o comentário não-publicado é exceção, já nos jornais a carta publicada que é a exceção.

  • "O que os dinossauros temem, eu percebo, não é a concorrência dos blogs, mas os leitores,…"
    Excelênte Cardoso !
    Acho que esta é a grande questão. Não tenho dúvidas.
    Parabéns pela clareza de idéias como sempre.

  • Pingback: ‘Não dependemos dos EUA e da Europa’, diz Lula. Ou quem diz é o G1? | Blogstoteles()

  • É existem vários motivos para o medo. O pior é que tem muito colega que realmente tem medo disso de qualquer um poder comentar. As pessoas não percebem que as respostas hoje são muito mais automáticas e encaram qualquer comentário negativo como um telefonema para o celular do chefe.

    Acho que os blogs passam por outros desafios. Não sei se o problema é exatamente credibilidade porque isso cada blog constrói. Não posso esperar do Contraditorium o mesmo que espero do Jovem Nerd, por exemplo.

  • E por experiência própria, posso dizer que muito desse ódio de "ser pego com as calças arriadas" vem por um longo medo construído na profissão. O de errar a manchete e ser ridicularizado etc. O problema é que os jornalistas precisam perceber que hoje o erro é muito mais iminente, assim como sua correção.

    De pleno acordo sobre usar o sobrescrito para correções. Nenhum portal hoje usa isso. E acho difícil que algum dia passem a usar…

  • Claudio Santos

    Acredito que a relevância da informação é o que realmente importa. Apenas postar opiniões próprias, com algum grau de importância, para um público altamente restrito e, geralmente, de opinião formada, é minimizar a relevância dada ao tópico. A certeza de que o assunto abordado provê informação, conteúdo, cultura e afins, deveria se estender, expandir de uma forma mais efetiva, eficaz; não somente se limitar aos poucos (muito poucos mesmo, em relação à massa) internautas, salsinhas ou paraquedistas; como quiserem…

    Enquanto existir a mídia tradicional e arcaica, existirá a incoerência, a informação manipulada, a ignorância… Mas limitar a mídia alternativa a blogs, zines e outras ferramentas, é tapar o sol com a peneira.

    P.S.: *Eu sei que na versão bíblica do mito não há raios… (Não é mito, amigo! É história com h!!!)

  • Realmente, a exposição que todos temos na blogosfera é imensa e faz com que erros, acertos, polêmicas e afins sejam levados ao extremo ou ao esquecimento, ao abandono.

    Gostei da abordagem.

    Abs,

    Stelleo

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