HERÓIS: Currahee É Aqui

As recentes revoltas no Egito são especialmente confusas para brasileiros com mais de 30 anos. Ver o Exército se posicionar ao lado dos manifestantes, sem ameaça de golpe e ainda por cima em uma ditadura confessa é demais para nossa cabeça. Fomos ensinados, acostumados, adestrados a odiar qualquer um de uniforme. Militar é burro, militar é feio, malvado, cruel, não pensa e vai te torturar para saber as horas.

bandofbrazucas

Na minha escola, que era um colégio civil da Aeronáutica aprendi sobre 2a Guerra Mundial em 3 dias. Sério. A Primeira então foi uma nota de rodapé. Em compensação Feudalismo acho que se abrir o email tem professora mandando trabalho de casa até hoje.

Não estou brincando, só soube que o Brasil havia participado da 1a Guerra Mundial com forças navais depois dos 25 anos, ao visitar o Espaço Cultural da Marinha no Rio. Passeio altamente recomendado, aliás.

Na escola e na faculdade somos massacrados com histórias de como soldados brasileiros eram fracos, covardes, incompetentes. Cineastas de objetivos questionáveis como Sílvio Bach fizeram carreira ridicularizando mais ainda as tropas que ousaram botar o pé na Europa, detalhes como a Força Expedicionária Brasileira ter capturado uma divisão inteira – 14.779 soldados alemães e italianos, comandados pelo General da Wermarch Otto Fretter-Pico. Ou com os Top Guns da FAB, alguns com mais de 100 missões. A Guerra é o ambiente mais cruelmente darwinista que existe, por isso a maioria das forças trabalhava com limites. Os pilotos americanos iam para casa com 10 missões. Os brasileiros não tinham reposição.

Com isso os que sobreviviam usavam a Força. Ao invés de seguir a regra e mergulhar para o bombardeio em vôo evasivo, desciam em linha reta no alvo, contando os segundos entre o disparo da artilharia antiaérea (os temíveis 88), calculando o tempo em relação a altitude que estavam e desviando no último segundo. Chupa Neo. Acho que por isso o 1o Grupo de Aviação de Caça ganhou o respeito dos aliados e inimigos, e uma Presidential Unit Citation, comenda dada pelo Presidente dos EUA a unidades que se destacaram em gestos de heroísmo, acima e além do chamado do Dever.

O 1o Grupo de Aviação de Caça foi uma das três únicas unidades não-americanas na 2a Guerra a receber essa honraria, mas isso você não aprendeu na escola, né?

senta-a-pua01Erik de Castro, com seu incrível Senta a Pua resgatou parte desse passado.  Mais tarde com o A Cobra Fumou trouxe a melancólica realidade dos veteranos da FEB, esquecidos abandonados e desprezados por um povo e um governo que os recebera como heróis. Morei oito anos em São Cristóvão, no Rio, e para minha profunda vergonha nunca soube que o humilde conjunto habitacional a duas ruas da minha era o Conjunto dos Pracinhas, repleto de HISTÓRIA, repleto de veteranos que passaram suas vidas tentando esquecer dos horrores da guerra ao mesmo tempo em que eles mesmos eram esquecidos.

Uma vez, vários anos atrás peguei um taxi com um coroa dirigindo. Na conversa o velhinho revelou ter sido veterano da Marinha na 2a Guerra. Eu havia acabado de ler um livro sobre isso, então ficou fácil identificar pelos detalhes se era verdade ou não. As histórias batiam, da melancolia de ninguém mais lembrar, dos netos não aprenderem nada na escola. Ao mesmo tempo, saudade da camaradagem, o medo durante os comboios, os mares infestados de u-boats. Lembro que quando cheguei ao final da corrida, uns meros 12 Reais tirei do bolso tudo que tinha, os R$15,00 reserados mais uma nota de R$50,00. Falei “isso não é nada. É pro senhor tirar o resto da tarde de folga”. Estiquei a mão e disse, sem acrescentar mais nada. “Obrigado”.

Ele entendeu.

heroisSéries como Band of Brothers e The Pacific mexem com todo mundo, mas principalmente com quem conhece um pouco da nossa História. É revoltante saber que há tanto a ser contado mas o preconceito e o revanchismo fazem com que os verdadeiros heróis sejam varridos para debaixo do tapete. TODO o respeito do mundo ao Major Winters, falecido recentemente, mas temos heróis por aqui que precisam ser reconhecidos também.

Por isso eu bato palmas pra este sujeito aqui, Guto Aeraphe. Ele está produzindo de forma independente um média-metragem – Heróis – sobre um dos milhares de pequenos grandes dramas da Força Expedicionária Brasileira. Conta a história de 3 mineiros, . Geraldo Baêta da Cruz, Arlindo Lúcio da Silva e Geraldo Rodrigues de Souza.

No dia 14 de Abril de 1945 os três faziam patrulha avançada quando encontraram uma companhia inteira do exército alemão. Poderiam fugir, poderiam tentar se render, mas algo acendeu dentro deles. Um fogo que já se viu em Termópilas, em Massada, um fogo que tantas vezes é descrito na ficção. O fogo de quem não pode ser derrotado, pois se cair viverá para sempre.

Os três enfrentaram a companhia alemã (entre 60 e 200 soldados) até o inevitável fim.

Ao invés de abandoná-los no mato, ou cavar um buraco qualquer e esconder os corpos, o comandante de campo alemão tomou uma decisão que mostra de novo a diferença entre militares de carreira e os carniceiros da SS. Mandou que os três fossem sepultados em covas individuais identificadas. Marcando o local, uma inscrição:

DREI BRASIANISCHE HELDEN

Três Heróis Brasileiros

O projeto está em andamento, Guto está produzindo algumas cenas iniciais de teste e em captação (cinema brasileiro está sempre captando). Já temos um dos primeiros momentos editados aqui:

Você pode acompanhar o projeto no blog oficial do filme, ou aqui mesmo, pois ninguém odeia mais guerra do que quem esteve lá, e a melhor forma de garantir que ela nunca mais aconteça, é nunca se esquecer.

[ATUALIZAÇÃO]

Mais um filme com potencial fantástico: A Montanha, de Vicente Ferraz. Dica da Sherrine Müller, via Twitter.


O Contraditorium vive de doações. Não veiculo anúncios no blog. Somente sua colaboração me incentiva a escrever artigos cada vez melhores, sem rabo preso com anunciantes, partidos ou militâncias. Prestigie essa liberdade, faça uma doação. Use o PagSeguro no botão abaixo ou via PayPal com o email cardoso@pobox.com. Caso você tenha uma carteira PicPay,meu usuário é @carloscardoso. Caso não tenha e queira uma forma de transferir pequenas (ou grandes, de preferência grandes) quantias sem taxas, é só se inscrever.  Eles te darão R$10,00 para experimentar, basta utilizar meu código promocional SKO4

Toda moeda é bem-vinda, desde que seja de país com luz elétrica e água encanada.




Leia Também:

  • Excelente, Cardoso!
    Amanhã com mais tempo postarei meu comentário. E vou repassar o link para meu grupo de amigos que discute as guerras mundias. Vida Longa e Próspera!

  • Igor J. Viana

    Emocionante: Falei “isso não é nada. É pro senhor tirar o resto da tarde de folga”. Estiquei a mão e disse, sem acrescentar mais nada. “Obrigado”.

    Infelizmente o passado do país é esquecido, tenho 17 anos e na escola nunca me ensinaram nada disso, em relação as tropas da FEB. O máximo que ouvi foram as piadas do meu professor de história, em relação ao número de soldados brasileiros.

    Cardoso é cultura!

    • profeloy

      Infelizmente, é bem capaz de a maioria dos professores de história também não terem aprendido adequadamente sobre a participação brasileira na 2ª guerra (o que é lastimável, registre-se). Dai sobram essas piadinhas que tenho certeza, fazem a maioria da classe rir. Triste.

    • Leia minha pesquisa embaixo.

  • Lindo! Cardoso, bem que você podia dar umas dicas de leitura a respeito da participação do Brasil nas duas guerras mundiais, porque aparentemente você manja mais desse assunto que a media.

    • sratoz

      Senta a Pua! de Rui Moreira Lima (sobre a FAB) — referência necessária, em 1a. mão
      … E foi assim que a cobra fumou… da Major Elza Cansanção, enfermeira da FEB (anedotário de óptica conservadora, mas narração em primeira mão)
      A missão 60, de Pereirón Mocellin, de novo sobre a FAB, também em primeira mão
      A caça brasileira: nascida em combate, de Carlos Lorch
      …e bàsicamente o que houver da Biblioteca do Exército, que tem bons livros. Nota-se meu viés aeronáutico, mas é que gosto de aviões.

    • sratoz

      Ah, e vários artigos de Carlos Lorch na Revista Força Aérea, da Action Editora (nenhum vínculo com a Força Aérea Brasileira, é só o nome).

    • Fabiane, estudo Segunda Guerra Mundial e me interesso demais sobre as histórias dos nossos Heróis da FEB.
      Minha recomendação inicial é o livro "irmãos de Armas", escrito pelo Tenente José Gonçalves e pelo historiador Cesar Campiani Maximiano.
      Nele, há uma série de acontecimentos que marcaram a vida dos nossos expedicionários, além de detalhes de toda a campanha.
      Outro livro interessante é o "Cartas do Front", onde há cartas escritas pelos nossos pracinhas aos seus familiares e amigos. Muito interessante de se ler. :)

  • João Auro Sogabe

    Lembro de uma das vezes que fui pro sítio da minha ex namorada com uma turminha (inclusive o @lockyz) e de acordarmos cedo e conversamos com o avô dessa minha ex que contava histórias dele na segunda guerra. Não importava o quão cansado ou com sono, acordava cedo pra tomar café da manhã com o Sr. Walter e ele sabia que eu fazia isso pra ouvir outra de suas histórias.

    É realmente lamentável que em nossas escolas não seja ensinada a história direito, que não nos orgulhemos de nosso passado e que quem se interessa tem que aprender por conta própria (ou em raros casos com algum professor que goste e conheça mesmo a história e se disponha a ensinar como aconteceu comigo).

    • sratoz

      Quem se interessa por QUALQUER coisa sempre tem que aprender por conta própria. O papel da boa escola é mostrar que o assunto existe e te ensinar o caminho para ir atrás. Mas concordo que esse tema, de tantos, merecia mais atenção.

  • Fiquei com o coração pequenino.

  • Alguém, em algum momento, falou pras criancinhas que escola era ruim, que o Brasil não precisa de soldados porque somos pacíficos e que beijar na boca de qualquer um é o maior barato… Infelizmente vivemos uma alienação, se você pedir pra um estudante de Ensino Médio fazer uma análise simples sobre Segunda Guerra, ele vai procurar na Wikipédia, Copy+Paste e pronto… Não sabem a diferença entre trabalho de pesquisa e trabalho de análise. E vibram com Tropa de Elite como se fosse uma coisa boa quando não é. Geração Internet my ass, é geração orkut+MSN e olhe lá…

  • ???????

    Muito interessante esse post. Obrigado pelas informações todas.

    Por outro lado, parece que a ironia presente em "DREI BRASIANISCHE HELDEN" não foi alcançada. O que os alemães queriam dizer é que eles matam até mesmo os heróis. Você é herói? Vai acabar morto, como esses três. O fato das sepulturas estarem identificadas é para que não restasse dúvida (poderiam enterrar qualquer um ali) por parte dos outros que fossem "imbecis" de tentar.

    Pelo menos é isso que eu acho, porque me é mais fácil acreditar em duendes do que na ética e na benevolência de um soldado alemão.

    • Nem ironia, nem ética, nem benevolência. Respeito à bravura do adversário.

    • carloscardoso

      Não acredite no que vê nos filmes, soldados alemães não comiam criancinhas. Esses eram os russos.

      • Mas mesmos os heróis brasileiros estavam lá para matar os Alemães! Isso é guerra! Os Alemães mataram sim os Brasileiros: para não serem mortos. Ética é o respeito pelo adversário valente que iria matar – ou morrer.

      • ???????

        hahahahaha!!! "comunista churrasqueador de criancinha"?
        você tem razão, os soldados alemães não comiam criancinhas, apenas assavam, mas não comiam.

        • "A História é Escrita pelos Vencedores" Provérbio Klingon: "The Way of the Warrior"

    • Todos nós crescemos ouvindo que os alemães (nazistas) são a escória da humanidade. Normal, como muito se diz por aí, a história é contada pelos vencedores. Agora não foram eles quem dizimaram duas cidades cheias de civis foram?
      É claro que tem toda a história do holocausto e whatever, mas é como o Cardoso escreveu, existia uma "diferença entre militares de carreira e os carniceiros da SS".
      As vezes eu penso aliás que toda essa história de holocausto é do mesmo naipe das histórias das "viúvas" da ditadura brasileira (não lembro onde li isso, acho que foi do Cardoso hehehe)…

      • carloscardoso

        nem é, o Holocauso é um dos eventos mais documentados da História. Documentado pelos próprios nazistas, diga-se de passagem. Não há contexto histórico que justifique extermínio de gente em escala industrial.

        • Na França e na Alemanha duvidar do holocausto dá cadéia.
          Como disse o Proverbio Klingon…

      • sratoz

        Sem falar que nem todo alemão era nazista… Mas Hollywood tenta sempre te convencer de que eram. E de que Werhmacht, SS, era tudo a mesma coisa, quando não eram. Rommel, por exemplo, não era um nazista convicto como Göring. Infelizmente não sobreviveu à guerra.

        • ???????

          Eu sei muito bem que nem todo alemão era nazista. Por que você acha que meus avós, paternos e maternos, vieram para o Brasil? Que sobrenome você acha que eu tenho?

    • Anderson

      Quantos soldados alemães voce conhece? Ou melhor você conhece algum alemão para fazer essa afirmação?

      Até parece nossos professores que sem conhecerem a historia ridicularizam os "pracinhas"….

      • ???????

        Sua resposta está bem ali em cima, para o sratoz.

        Interessante como as pessoas gostam de partir de pressupostos por aqui… manifestou opinião contrária… tá fudido. Agora entendo toda a série infindável de posts do cardoso sobre trolls.

        Eu só lia o contraditorium via RSS. Vou continuar a fazer assim, com muito gosto.

    • Gustavo

      Larga a um pouquinho só o Ipod e o MSN e vai ler um pouco. Dê preferência algum livro decente, em uma biblioteca ou livraria decente sobre a segunda guerra mundial.

  • Cardoso, lembro que li a algum tempo atrás sobre isso. Quando os pracinhas voltaram, depois de algum tempo foram proibidos até de usar farda, pois a luta deles instigou uma revolta contra a ditadura Vargas.
    Afinal, eles lutaram para libertar a europa, não fazia sentido ter uma ditadura na própria terra natal…
    É claro que a história não é assim preto no branco, mas em linhas gerais foi isso aí.
    Durante a guerra havia uma tremenda campanha de difamação das tropas. Isso aparece no documentário sobre o grupo de caça se não me engano. Depois da guerra, esse "preconceito" aumentou por causa dessa iniciativa governamental…

    • sratoz

      Foram desmobilizados ainda antes de chegarem ao Brasil. Uma vergonha: antes mesmo do retorno, já não eram mais considerados "em operações de guerra".

  • Eu era burro de confundir os linha-dura com todos os militares. Eu era mesquinho de ficar feliz porque o Exército está falido. Eu era um imbecil.

    • Uber

      Eu também era um!

  • Meu, gosto dos seus artigos, das suas patadas, mas parei de ler este artigo qdo li a história do taxista. Hahahahahahahahaha. Que poser… tsc tsc. "Pro senhor tirar o resto do dia de folga"? "Ô, dotô, brigadu. Compensou eu ter arriscado minha vida. Se todo mundo me desse R$ 65 por uma corrida de R$ 13, eu ia falar: vacilô, troxa." ahhahahaha Vc escreve bem, mas mtas vezes é poser demais. No fim, não tocou o hino nacional não?

    • carloscardoso

      Céus, como você é medíocre. Tenho pena de você, sério.

  • Luiz

    Um dia foi na minha escola a Major Elza, uma estudante de enfermagem que na época da guerra se voluntariou a criar um grupo de enfermeiras e ir para a guerra para ajudar os pracinhas. Ela contou muitas histórias, mas entre as mais interessantes são sobre como os brasileiros tiravam dos seus suprimentos para alimentar as pessoas na Itália (tanto que por algum tempo em algumas regiões italianas mingau virou uma gíria para coisa boa) ou então como a tropa brasileira foi a única que não teve nenhuma ocorrência de infecção no pé ou perda por congelamento, pois a criatividade fez com que enrolassem jornal com palha para proteger os pés.

  • Cara, há uns 6 anos, quando estava terminando a faculdade de História aqui em Fortaleza, pela federal, tive professores que trabalharam textos e livros muito interessantes sobre a primeira e segunda guerra e principalmente a participação brasileira em ambos os embates… isso foi fundamental na minha formação sobre o século XX.
    O "engraçado" nisso tudo é que os professores que mais trabalharam essa perspectiva de participação brasileira, próxima aos elementos de seu texto, eram estrangeiros (um francês, um italiano e um casal de argentinos)… os professores brasileiros que não corriam atrás, na época, desses textos… uma pena!

    • Gustavo

      É porque os professores de história de hoje, com raríssimas exceções, são um bando de comunistas de beira de esquina, recalcados por causa da ditadura brasileira. Na rua e na universidade pregam o socialismo. Em casa querem luxo. Parecem o Plínio de Arruda Sampaio, que pregava a distribuição de renda e, quando questionado pelo CQC ,se iniciaria distribuindo a sua renda de mais de 1 milhão de reais falou um categórico não. Quem paga com isso é o estudante e mais do que ele a cultura do nosso Brasil.

  • Eu dei a sorte de ter uma professora que,ao ensinar sobre a segunda guerra, nos fez ir ao Clube dos Ex Combatentes para entrevistar aqueles senhores com tantas histórias.

    Dava pra ver no rosto deles o orgulho de ter ido, lutado e voltado; a saudade dos amigos que não conseguiram; o entusiasmo de compartilhar aquelas experiências com todos nós, pré adolescentes que mal sabiam que o Brasil tinha ido à guerra, quiçá que tinha levado tantos e tão valorosos soldados.

    Aqueles senhores, alguns mal tinham força pra ficar em pé direito, pareciam crianças contando com empolgação como tinha sido o primeiro dia de aula pros pais…

  • Adriano Garcia

    Quanta diferença entre o tratamento dado os ex-combatentes no Brasil e nos Estados Unidos. Enquanto nossos heróis militares do passado são esquecidos, os "ex-combatentes da esquerda", mesmo a grande maioria que xingou muito no Twitter da época, gozam de gordas pensões, retroativas, pagas por todos nós. Foi um investimento, afinal.

    Recuperar a memória militar brasileira funcionaria como um antídoto para que o Brasil não vire uma Costa Rica, que aboliu suas forças armadas e agora sofre na disputa fronteiriça com a Nicarágua.

  • Adriano Garcia

    Quanta diferença entre o tratamento dado os ex-combatentes no Brasil e nos Estados Unidos. Enquanto nossos heróis militares do passado são esquecidos, os "ex-combatentes da esquerda", mesmo a grande maioria que xingou muito no Twitter da época, gozam de gordas pensões, retroativas, pagas por todos nós. Foi um investimento, afinal.

    Recuperar a memória militar do passado é importante para evitar que o pensamento majoritário hoje escolha o caminho da Costa Rica, que aboliu suas forças armadas e agora sofre as conseqüências em sua disputa de fronteira com a Nicarágua.

  • Getúlio desmobilizou as tropas antes mesmo que essas tocassem chão brasileiro. Não era de interesse nem dele nem de quem mandava naquela época manter um exército profissional. Pode parecer burrice, mas eles pensaram nas consequências políticas de se manter 25 mil homens com mais de 1 ano de experiência de treinamento e combate (até então inédita no país) dentro das forças armadas. Eles poderiam ser uma ameaça a qualquer regime…

    Diferente da experiência nazi-fascista européia, a ditadura de Vargas não foi do tipo mobilizadora, ou seja, o governo não tratou de organizar tropas paramilitares nem de convocar o povo às ruas para fazer algo, nem que fosse assistência social. No começo do Estado Novo, setores do governo até tentaram, mas ninguém deu bola e a coisa não foi pra frente. Como sempre as elites brasileiras não apostaram na mobilização política da população, pois as "massas" eram (e são, vide Egito) perigosas pro seleto grupo de mandatários.

    Dessa forma, Getúlio condenou ao ostracismo dezenas de milhares de soldados altamente capacitados e experientes, podendo ter aproveitado esse momento para, enfim, profissionalizar o exército, que, com exceção da Guerra do Paraguai, vivia de tomar pau de qualquer bando armado com paus e pedras.

    Agora, falando sobre filmes, realmente o Brasil esqueceu esse pessoal, talvez pelo ranço contra a ditadura. Eles são heróis, mais do que vários "vultos" da nossa História. E essa ignorância acaba por encobrir um contexto riquíssimo, cheio de possíveis tramas que podem ser tão ou mais complexas que os filmes dos EUA.

    Imaginem, por exemplo, o dilema de pracinhas brasileiros da região de Blumenau e que aprenderam a falar português com 15 anos de idade, lutando contra seus primos alemães na Itália, ou Integralistas lutando contra os exércitos que representavam algumas das suas idéias políticas. Isso sem contar a presença das mulheres: as enfermarias de guerra já valeriam tanto quanto um House – ou um Scrubs, por que não? (Não podemos esquecer também daqueles que nem sabiam o que estavam fazendo ali, que não eram poucos… Não idealizemos demais, vide Tiradentes!!)

    As possibilidades são várias, existem muitos estudos sobre essa complexidade nas tropas tupiniquins, e abundam os livros de memórias da FEB e da FAB. O que falta é o país dar mais importância a sua própria história, e, no caso dos filmes, importância a personagens que transmitam valores mais saudáveis que aquele "espírito de corpo" fascista do doido do Cap. Nascimento.

    • Getulio fez o que os Imperadores romanos: Aos generais vitoriosos era proibido entrar em Roma com suas legiões, que ficavam acampadas fora da cidade.
      Quando ao Capitão Nascimento… na situação atual que o Brasil está… ah! Deixa pra lá!

  • Eu nunca gostei das aulas de história. Não por conta da "História" em si, mas porque elas SEMPRE eram maçantes. Mas lendo artigos do Cardoso eu sempre penso que se meus professores (aliás, professoras: nunca tive professor de história homem, do primário ao final do CEFET) fossem como ele, talvez a História tivesse sido outra. Mais um belo artigo, Cardoso, como sempre (sem pressão, né? :D)

    • Alguém disse uma vez: "AQUELE QUE ESQUECE A HISTÓRIA; É OBRIGADO A
      REPETI-LA!
      "

  • Mais pura verdade, enquanto estava na escola a parte que eu mais queria ver nos livros de história era sobre A Primeira e Segunda Guerra e infelizmente era o que menos tinha espaço.

  • E, sendo chato de novo, é perigoso glorificar sem críticas qualquer coisa, principalmente pessoas envolvidas em episódios extremos, como guerras, revoluções, fomes e catástrofes, pois há sentimentos fortes e delicados envolvidos, e que não podem ser desmerecidos.

    No caso da II Guerra, inegavelmente os pracinhas e pilotos lutaram, sofreram e morreram. Participaram de atos heróicos, fizeram de tudo para defender a si e ao grupo. Mas não podemos esquecer que eles, assim como qualquer soldado, eram buchas de canhão dos interesses de cada país. Dos EUA em frear uma economia em forte expansão e altamente competitiva (a Alemanha), da União Soviética em manter a sobrevivência do regime e aumentar sua esfera de influência, do Brasil, na frágil tentativa de inserção na economia de mercado da época (trocar sangue por infra-estrutura).

    Os pracinhas lutavam pelas suas próprias vidas, eles estavam numa sinuca de bico, pois liberdade era tudo aquilo que não tinham no país, que vivia uma ditadura de quase 15 anos. Muita gente não teve escolha, ou ia tirar borracha/catar algodão/carregar café (insira aqui o esforço de guerra preferido) ou ia pra guerra. Da mesma forma, os negros norte-americanos lutavam, mas pelo quê, se eles eram cidadãos de 2º classe em seu país? Ou os soviéticos, pra serem massacrados antes, durante e depois do conflito, lutando pela liberdade que também não tinham no seu país de origem.

    Isso não desmerece sua ação na Europa, diferente de como faz o GRANDE SACANA do Sylvio Back* (do horrível filme "Rádio Auriverde", que tira onda dos pracinhas). Pelo contrário, mostra que o nosso povo consegue se virar com o pouco que oferecem, e supera várias dificuldades. Mostra como foi heróica sua sobrevivência nos campos de batalha, e como foram heróicas as soluções que encontraram para derrotar um inimigo que, no fim das contas, não era muito diferente dele. Mostra como muitos lutaram "pelo seu país" e voltaram com sequelas horríveis, traumas que ninguém conta, e cujo o governo jogou para debaixo do tapete. Assim, é preciso cuidado para não endeusá-los e esquecer os interesses maiores dos grupos econômicos, países e exércitos, esses motivos que fazem indivíduos sairem de casa para matar seus irmãos.

    *Esse Sylvio Back conseguiu várias cartas pessoais dos pracinhas, coisas muito íntimas, sob o pretexto de fazer um documentário. Os ex-combatentes confiaram nele pensaram que o diretor ajudaria a compensar uma dívida histórica do país com eles. Quando o filme foi lançado, os expedicionários ficaram indignadíssimos com o uso sacana que esse indivíduo fez das memórias dos combatentes, pois no fim das contas o doc. é uma crítica babaca, que tenta ser engraçada, à presença brasileira na guerra.

    • Um dos motivos porque as grandes cidades alemãs fossem reduzidas a pó, foi para que os soldados aliados não vissem o alto grau de comodidades disponível em Alemanha. Os soviéticos não conheciam nem vasos sanitários com descarga, televisão, torradeiras eletricas nem máquinas de lavar.
      Televisão domiciliar era coisa que não existia nem nos Estados Unidos na época.
      Os soldados soviéticos que tomaram Berlim, quando retornaram foram enviados para uma localidade bem distante nos montes Urais e nunca voltaram a Moskovo… talvez para que não contassem o que tinham visto em Alemanha aos seus compatriotas oprimidos por Stalin, o Maior Carniceiro Da HIstória, com 50 milhões de mortos, só superado décadas depois por Mao com seus 70 milhões.

  • digrigo

    Vale ressaltar que a denominação de "pracinhas" (vindo de praça, sentar praça, soldado raso) corroborou em muito para desmerecer tudo que o FEB fez na Itália.
    Minha mãe dizia "pracinhas" com jocosidade, o de certa forma foi imposto pela propaganda oficial, veja você. Até agora, quando remanescentes vivos daquela epopéia estão presentes em desfiles militares, os velhinhos são chamados "carinhosamente" de "e lá vem os nossos pracinhas que lutaram na Itália", onde o clima de um desfile remete a uma idéia de reles papel secundário na guerra.
    Nunca vi referências ufanistas sobre os soldados, nada de "nossos heróis na Itália" ou alguma variante disso.
    E, terminando, meu pai foi amigo de ex-combatentes, disse que usavam enrolar os pés com jornais velhos, abaixo das meias e botas, para combater o frio da neve. E que americanos gostaram e copiavam a idéia.
    O jeitinho brasileiro, como sempre.
    E parabéns Cardoso, pela postagem e posturas.

  • jlucasfb

    Mais um texto impecável!
    Sobre o documentário Senta a Pua, eu ganhei camisas da divulgação (tios na FAB), mas nunca tinha visto, seja por esquecer ou por preguiça.

    Hoje antes de terminar de ler me determinei a baixar, achei um torrent com 3 seeds, neste momento com 50% completo já são 10 seeds e 11 peers (e subindo!) e estou baixando a cerca de 200kBps. :D

    PS1.: A quem interessar possa: http://thepiratebay.org/torrent/3805659/Senta_a_P

    PS2.: @MarcioNeves, e não é verdade que praga do cefet tem em todo lugar? Mais um aqui. o/

    PS3.: Bom console, mas eu não tenho ainda.

  • Murdock

    Temos o documentário do João Barone, "Um Brasileiro no Dia D", que precisou ser feito pelo filho de um ex-combatente. Infelizmente, como ele mesmo diz, o mundo pouco sabe da participação brasileira na Segunda Guerra. De minha parte, quando fui ao Monumento aos Mortos ali no Aterro do Flamengo, prestei minha homenagem.

    Por outro lado temos que ver idiotices como essa: http://cafehistoria.ning.com/group/segundaguerra/

    Tinha um site com um artigo enorme falando sobre o tratamento dado aos combatentes ao voltarem pro Brasil mas não consigo achar…

    • Quanto ao texto do Café História, tem gente que se exalta demais na onda do "não nos contaram toda a verdade" e fala bobagem. Muitas vezes a versão oficial sobre os fatos (não só a participação da FEB) é bastante enganosa, mas a crítica a essas versões deve ser feita de forma científica, e não acusatória.

      • Murdock

        Ah sim, mas esse cara aí não merece mais respeito do que… do que… Nem sei dizer.

  • Rafael

    Cara, vou hospedar meus sites na Blue Host, você ainda faz o "Golden Sites" pra quem cadastra pelo seu link?

  • Eduardo

    Pois é Cardoso, se ele estivesse filmando um documentário sobre o comunismo, falando bem é claro, teria um rio de dinheiro especialmente do governo. Como esta falando dos militares, bem, ai ele que se vire.

  • Em um pais que não lê, é quase uma afronta o que vou questionar agora.
    Porém, como me recuso a nivelar por baixo, insistirei:

    Porque estes pracinhas não se organizam para contar suas histórias?
    Livros, filmes, teatro, museus…

    Quero sonhar que ainda exista mercado para cultura, história e conhecimento no Brasil.

    • sratoz

      O Exército até dá valor. Mas considere que os pracinhas estão muito idosos, muitos já morreram… Difícil mobilizar.

  • Caralho Cardoso, esse artigo me embargou a voz e me deu frio na espinha.

  • Texto primoroso, especialmente a parte onde diz: “ninguém odeia mais guerra do que quem esteve lá, e a melhor forma de garantir que ela nunca mais aconteça, é nunca se esquecer.”

    Não estudei nada na escola sobre a participação do Brasil nas Grandes Guerras. Acho isso um absurdo. Um país que se envergonha do passado, não terá dignidade ao construir um futuro.

  • Recomendo um ótimo livro sobre o assunto: "O Fantasma da Guerra", de Pedro Antônio Correa, um autor aqui da minha Santa Catarina. Ele fala sobre diversos feitos dos Pracinhas na Segunda Guerra, entre eles, a tomada do Monte Castelo.

    Muito bem escrito. Recomendo.

  • Luigi Almeida

    Morei em Mogi das Cruzes e Lins.
    Mogi foi uma das cidades brasileiras com o maior número de expedicionários, se não a que teve o maior.
    Os feitos deles são cantados no hino da cidade, a bandeira da cidade tem a cobra fumando, simbolizando-os.
    Lins enviou 4 voluntários, os 4 receberam ruas em seus nomes e uma praça com monumento erguido a eles.

    Então, desde cedo aprendi a valorizá-los.
    É realmente uma vergonha que os professores de história diminuam tanto aqueles que fizeram História pro país.

    E quanto aos alemães, não considero o ato ter sido irônico, considero, sim que eles reconheceram a bravura. A mesma bravura que fez os 300 de Esparta serem conhecidos até hoje, mesmo tendo sido dizimados pelo exército de Xerxes.

  • Excelente texto. A parte da inscrição dos três heróis brasileiros chega a emocionar.
    Recomendo o livro "Inverno da Guerra", que traz um apanhado dos relatos de Joel Silveira, jornalista correspondente na II Guerra que cobriu as missões da FEB, inclusive a tomada de Monte Castelo.

  • Olá! Sou Guto Aeraphe, diretor do filme "Heróis". Obrigado pelos elogios e palavras de apoio! A boa notícia é que a verba foi inteiramente captada (não é muito, mas vamos fazer o melhor!) e os trabalhos já foram iniciados. A Rede Minas irá transformar em uma minissérie em 4 capítulos e estamos conversando para tentar estreiar nacionalmente pela TV Cultura ou TV Brasil. A previsão para o lançamento é em Julho deste ano.

    Além disso, há uma empresa interessada em transformar o filme em Game.

    Em brefve lançaremsoo site oficial do filme onde haverá dois links interessantes. O primeiro irá contar a história da batalha de Montese, com videos e fotos originais e infográficos animados. Além disso haverá um PDF que servirá como material de apoio a professores para uso do filme em sala de aula em diversas disciplinas.

    Em um outro link que se chamará "Tributo aos Heróis" onde abriremos espaço para que parentes de ex-combatentes e entusiastas do assunto publico fotos e textos sobre nossos Heróis.

    E como estamos dizendo aqui no set… " A cobra vai Filmar!!!" Mais uma vez obrigado e até mais!

    Guto Aeraphe

    • Uber

      Que bom, estarei aguardando!

  • minichiello

    Até hoje na Itália na cidade de Pistoia é mantido um monumento para lembrar desses heróis da FEB que morreram durante a segunda guerra. Por toda a cidade existem placas para indicar a localização.

    Acho que esse é o melhor vídeo que encontrei para mostrar o lugar http://youtube.com/watch?v=MmkpseBXP64

  • Márcio Dias

    Cardoso.

    Post primoroso. Tive que me conter para não ir as lágrimas aqui no serviço. Aprecio muita tua abordagem quando tua analise sai do ambiente de internet e vai mais para o ambito de "Moral e Cívica". Esse post e o anterior sobre lixo e educação são excelentes.

    Vou compartilhar uma pequena história, muitas delas parte de minha memória de infância.

    Meu tio (casado com a irmã de minha mãe) e padrinho de batismo se chamava William Hart da Silva. Morava em Sorocaba/SP quando fez parte da FEB na Itália e seguiu com a carreira militar após o fim da guerra, teve diversas promoções e se aposentou no final dos anos 70 como Capitão. Foi testemunha viva de boa parte da história do Brasil na segunda metade do Século 20.

    – Durante a campanha da FEB, todo o salário, pago em doláres, era enviado para a família no Brasil. Como os parentes achavam que ele não iria voltar com vida, gastaram todo o seu soldo. Quando ele retornou para casa já não havia mais dinheiro.
    – Não sei se chegou a participar de combates, nunca comentou algo sobre isso.
    – Serviu no quartel de Quitaúna em Osasco/SP com o famoso Capitão Lamarca. Inclusive estava de plantão no dia em que este desertou e levou um Kombi cheia de armas e munições para a guerrilha.
    – Durante a represão, sua filha mais velha fazia parte da UNE, inclusive ela estava presente no Congesso da UNE em Ibiúna/SP em 1968, aonde mais de 700 pessoas foram presos pelas forças de repressão da ditadura. Ela só foi liberada com interferência do pai.

    Ele faleceu durante o tempo em que eu prestava o serviço militar. Não tive o prazer de conversar com ele muitos assuntos que com certeza ele teria muito o que me ajudar e opinar.
    Fiquei espantado com o choque de realidade que este post me trouxe. De que eu fui um dos poucos que tive um contato com esse parte da história, sendo, para o resto do Brasil uma história ignorada ou esquecida.

  • Emocionante. Acabei de ler uma coisa imbecil, mas que me fez refletir: a Lady Gaga disse à Vogue de março que se considera uma das melhores de seu ramo e pretende lançar o melhor disco da década. Resultado: 100% de comentários com críticas à falta de humildade. Isso pode até ser da nossa natureza, mas muito mais da nossa natureza cultural do que genética. Não é sacanagem dizer que o brasileiro é um fodido babaca que se acha o dono do mundo mesmo mergulhado em um mar de merda. Infelizmente somos assim e parece que cultivamos com carinho esse jeito preconceituoso de ser. Até porque é mais fácil definir arbitrariamente do que concluir com base no raciocínio.

    Essa mentalidade de humildade acima de tudo, mesmo sabendo que não somos humildes; esse ódio com os militares, com os policiais e as autoridades em geral; essa mania de ridicularizar os professores… Cara, não adianta vir com brasileirismo de achar que acontece no mundo inteiro. É coisa de mais alguns povos sim, mas patrimônio brasileiro. Somos burros, somos babacas.

    Como não pretendo viver no mundo das nuvens de algodão, lamento por viver em um país que JAMAIS terá uma educação como sonhamos, como ao ler este post, em ter.

  • alexandrelemke

    "pois ninguém odeia mais guerra do que quem esteve lá"

    Nada mais real. Meu tio-avô lutou na guerra e nunca quis que eu fizesse parte do exército.

  • Se você tiver o contato do pessoal que faz o filme, mande esse link para eles: http://www.kickstarter.com/pages/youtube . pode ser útil na parte de levantar verba

  • Excelente, Cardoso!
    Bueno, andei pesquisando e resolvi colocar um pouco de história:

    Os adversários da FEB – Fonte deste artigo: As duas faces da glória – William Waack – Nova Fronteira.

    A composição e os armamentos dos alemães que enfrentaram a Força Expedicionária Brasileira, na Itália.

    A FEB enfrentou nove divisões alemãs, ou esteve em contato com elas, durante os meses em que permaneceu na Itália: a 42ª Ligeira, a 232ª de Infantaria, a 84ª de Infantaria, a 114ª Ligeira, a 29ª Motorizada, a 334ª de Infantaria, a 305ª de Infantaria, a 90ª Motorizada e a 148ª de Infantaria. O leitor deve ter observado os “números altos” da maior parte dessas divisões – para o especialista, isso indica que a unidade se formou já no final da guerra, às pressas, com recursos reduzidos e deficiência de tropas aptas. O supremo comandante das tropas alemãs na Itália, o marechal Albert Kesselring, atribuía apenas a 29ª Motorizada (a conhecida “Divisão Falcão”, em alemão, a 29ª Panzer Grenadier Division) o qualificativo de “primeira linha”. Com esta os brasileiros tiveram pouco contato. As demais, em especial a 114ª Ligeira (114ª Jägerdivision), despertavam pouca confiança no alto comando alemão.

    Três dessas unidades interessam particularmente aos brasileiros, já que participaram dos episódios memoráveis da FEB: a 232ª de Infantaria (a que defendeu Monte Castello), a 148ª de Infantaria (que se rendeu em Fornovo) e a 114ª Ligeira (engajada na batalha de Montese). Com a 232ª, os brasileiros estiveram envolvidos do final de Outubro de 1944 até Fevereiro de 1945 e voltaram ainda a enfrentá-la na fase de perseguição final aos alemães, em Abril de 45, vale a pena vê-la de perto, a partir dos documentos alemães.

  • Continuando com o artigo de Willian Waack:
    Com data de 22 de Junho de 1944, o Alto Comando do Exército alemão ordenou a formação de cinco divisões “presas ao solo” (bodenständige), para emprego na frente ocidental, na defesa de grandes fortificações ou trechos de costa. A idéia por detrás da organização dessas divisões da 27ª onda (em toda a guerra, os alemães tiveram 31 “ondas” de formação de tropas), era criar rapidamente, no máximo em quatro semanas, unidades com reduzido volume de pessoal, para tarefas específicas de defesa que pudessem empregar, portanto, soldados não tão aptos para outras funções na primeira linha de combate.

    O efetivo previsto era de 9 mil combatentes, ou seja, uns 1.500 homens a menos que as unidades “normais” da Wehrmacht. Os cortes foram feitos, de preferência, nos serviços de retaguarda e suprimentos. As reduções atingiram pesadamente os sistemas de transporte e logística, que praticamente voltaram aos tempos da Primeira Guerra, empregando sobretudo mulas e cavalos para o transporte do equipamento pesado, em vez de veículos motorizados. Explica-se: para o pessoal de planejamento no Alto Comando em Berlim, já que ficaria “preso ao solo”, esse tipo de divisão não precisaria mesmo de muitos meios de locomoção. No caso da 232ª, assim como de suas quatro irmãs, compreendia três regimentos de infantaria (de números 1043, 1044 e 1045, cada um com dois batalhões), um batalhão de fuzileiros, um regimento de artilharia com quatro batalhões, companhias de pioneiros, estado-maior, reconhecimento e defesa antitanques. Praticamente, cada divisão formada nesse período tinha efetivos diversos, mas os planos oficiais previam para um regimento a força de 1.987 homens, dos quais 268 não-combatentes. Um batalhão de infantaria chegava aos 708 soldados, divididos em quatro companhias leves (ao redor de 140 soldados) e uma pesada (200), por sua vez subdivididas em pelotões com cerca de 30 soldados e seções com oito a dez. Um regimento de artilharia compreendia pouco mais de 2 mil homens.

  • Continuando:
    Em geral, mais importantes que o número de soldados de uma divisão, são seu armamento e seu treinamento, além, é obvio, do comando. O típico batalhão de infantaria da 232ª (eram dois por regimento) deveria possuir 13 metralhadoras leves e duas pesadas por companhia (eram quatro por batalhão). A companhia pesada (uma por batalhão), disporia de seis metralhadoras pesadas, três leves, seis morteiros leves e quatro pesados (que ainda não tinham sido fornecidos quando se formou a divisão). A metralhadora padrão dos alemães era a MG 34 (MG é a abreviatura de Maschinengewehr, metralhadora), que os pracinhas, por motivos inexplicáveis, apelidaram de “Lurdinha”. Como unidade até certo ponto capaz de operar por si própria, um batalhão deveria dispor ainda de uma companhia com dois canhões antitanque de 7,5 cm (que o soldado alemão conhecia por PAK, ou seja, “Panzerabwehrkanone”), três metralhadoras leves e 36 bazucas. Distribuídas por pioneiros, fuzileiros, etc., entre outras armas, a Divisão deveria possuir 8.598 fuzis, 108 bazucas, 2.013 pistolas, 1.595 submetralhadoras, 13 canhões antiaéreos de 2 cm, 22 lança-chamas e 389 pistolas de luz.

    Com exceção de 300 fuzis de fabricação tcheca, todas as demais armas de posse da 232ª eram de procedência alemã. Ocorre que a falta de armas nos depósitos e almoxarifados da Wehrmacht, obrigou a Divisão a destacar “comandos” para ir buscar seu material diretamente na linha de produção das fábricas. O equipamento era quase sempre do último modelo, mas isso trouxe, paradoxalmente, dificuldades suplementares: sua chegada tardia ao campo de treinamento de Wildflecken não permitiu familiarizar a tropa com seu uso. Mais tarde, em situação de combate, os alemães tiveram suprimentos e reposição de armamentos cortados e dependiam do que conseguissem do inimigo. Em março de 1945, por exemplo, outra unidade, a 114ª Divisão Ligeira, teria uma lista de armas que incluía 101 carabinas polonesas, 197 sérvias, 26 metralhadoras turcas, 32 iugoslavas e 40 italianas, quatro morteiros austríacos e um total de 30 canhões italianos diversos, incluindo antiaéreos.

  • Continuando:
    O Regimento de Artilharia da 232ª deveria dispor de três batalhões leves, cada um com três baterias leves (duas baterias com quatro Feldhaubitze de 105 mm e uma só com três peças) e um batalhão pesado, com três baterias pesadas (cada uma com três canhões de 150 mm). Havia também um número não especificado de canhões antiaéreos de 88 mm, cujo poder de fogo permitia que fossem empregados também como artilharia comum (esta foi, provavelmente, a peça mais famosa que os alemães construíram durante a Segunda Guerra, pois arrasou os tanques ingleses na África). As peças deveriam ser “servidas” por um contingente nutrido também de Hiwis, a abreviação alemã para “Hilfsfreiwillige”, ou seja, “voluntários” e “ajudantes” locais. Seu número possivelmente excedia a duas centenas de homens. O Regimento de Artilharia da 232ª jamais conseguiu contornar dois problemas: munição e transporte. A falta de granadas em número suficiente levou a um severo racionamento. Cada canhão podia disparar no máximo sete tiros por dia. No caso das peças pesadas de 150 mm, o comandante da bateria ainda tinha de pedir autorização ao posto de comando do Regimento para disparar sobre um alvo que julgasse interessante.

    O meticuloso planejamento do Alto Comando estipulava (na rubrica “meios de transporte”) 501 veículos a motor, 1.395 puxados por animais e até mesmo 678 prosaicas bicicletas, uma das últimas alternativas imaginadas pelos alemães para compensar a falta de gasolina, distribuídas sobretudo ao batalhão de fuzileiros. Para muitos soldados, acabaram sendo essenciais durante a perseguição final que sofreram pelas tropas aliadas, em abril de 1945. Os sobreviventes contam que, pelo menos, ninguém estava a pé e quem não tinha sua bicicleta simplesmente a roubava da população italiana (o que acontecia, evidentemente, com gêneros alimentícios na relativamente rica região da Emilia Romana). No mínimo uns 4 mil cavalos se destinavam à Divisão, dos quais 802 apenas para montar. A realidade era muito diferente dessa descrição minuciosa. Os 300 veículos que a Divisão recebeu (em vez de 500), eram todos usados, a maior parte civis, que haviam sido “requisitados” por toda a Europa. Vinham de 40 procedências diferentes, complicando severamente o trabalho de manutenção. A única exceção se constituía de 20 caminhões Opel Blitz de três toneladas, a cargo da companhia de transportes e três tratores de 12 toneladas (do batalhão pesado de artilharia), que eram novos. A Divisão precisou organizar por sua conta o transporte dos veículos de Berlim, Kassel ou Praga para o campo de treinamento de Wildflecken (localidade a leste de Frankfurt que até hoje serve para fins militares: atualmente a OTAN treina ali tiros de artilharia), aonde chegaram de trem, por falta de gasolina. Pelo mesmo motivo – racionamento de combustível – não puderam ser utilizados para fins de treinamento.

  • Continuando…

    Essas informações fazem parte de um relatório que o comandante da 232ª Divisão de Infantaria, o general barão Eccart von Gablenz, escreveu em 1946, como prisioneiro dos americanos. Literalmente a figura do barão é um capítulo à parte. Entusiasmado por cavalos, como quase todo oficial alemão tradicional, o barão inspecionou pessoalmente a chegado dos animais, seu principal meio de locomoção. Dos 1.500 cavalos da Divisão (em vez de 4 mil), apenas um terço veio da região próxima ao campo de treinamento. O restante foi “requisitado” na Lituânia e seu estado, dado como satisfatório, apesar do longo transporte de 20 dias, por trem, organizado por “comandos” escalados pelo general. Infelizmente, queixava-se o barão, com algumas poucas exceções, não havia nenhum bom cavalo para montar. Os demais, além disso, não puderam ser treinados a tempo para as novas tarefas: a princípio faltavam arreios e os animais estavam acostumados a trabalhar só na agricultura.

    Evidentemente, a mobilidade da 232ª era das mais reduzidas, o que se agravaria ainda na Itália em virtude da total superioridade aérea dos aliados. Apenas um terço dos homens e do material podia ser transportado ao mesmo tempo. Isso retardou consideravelmente a entrada em ação da Divisão nos Apeninos, a partir de meados de outubro de 1944. Apenas as companhias do Estado-Maior, de comunicações, defesa antitanques e três colunas de transporte podiam mover-se por conta própria.

    Em comparação com os alemães, a FEB dispunha de recursos de transporte consideráveis, o que foi inclusive louvado por seus comandantes como um dos elementos táticos essenciais para o bom êxito de operações de combate.

    Do ponto de vista das comunicações, a 232ª era totalmente inferior a seus adversários. A precariedade de sua situação é traduzida pelo fato dela ter recebido, para sua companhia de rádio, apenas aparelhos restaurados e já utilizados na campanha de 1939. Os telefones incluíam modelos de quase toda a Europa, mas sem fios e cabos suficientes para longas distâncias. Sequer a quantidade mínima prevista nos planos – e até essa o general von Gablenz considerava insuficiente – foi preenchida. A tropa na linha de frente dispunha de recursos piores ainda. “Todas as nossas dificuldades táticas no terreno de luta, mais tarde, deviam-se basicamente a esse problema.”

    Também os pioneiros (tropa empregada em serviços de engenharia, como preparação de estradas e fortificações, tarefas táticas, como preparação do terreno para um ataque ou ainda, assegurar a retirada através de minagem, destruição de pontes, etc.), em ação num terreno difícil e acidentado como o dos Montes Apeninos, com pontes e estradas destruídas ou em péssimo estado, não receberam o material pesado prometido.
    Fim,
    Espero ter contribuido para o conhecimento dos comentaristas.
    Vida Longa e Próspera!

  • Odeio guerras,mas sou fascinado por toda a história da Segunda guerra Mundial.
    Infelizmente,toda a história brasileira é deturpada desde a colonização,a participação dos brasileiros na segunda guerra é quase que omitida.
    Só tive conhecimento da Senta Pua e seus atos heróicos através de um livro americano (não recordo o nome).Pelo menos agora temos uma nova geração buscando recordar a história,espero que meu filho tenha uma educação melhor.
    Parabéns Cardoso!

  • Roberto

    Cardoso, uma das maiores homenagens está aqui ó:
    http://www.sentandoapua.com.br/portal/galeria-de-

    Em Petrópolis tive a oportunidade de conversar com vários pracinhas. Arrepia. E tive a oportunidade de agradecer pessoalmente a um deles, que ficou muito tocado com minha atitude: "Quero agradecer, em nome de minha família por ter colocado sua vida em risco para que pudéssemos ser livres. Muito obrigado."

    Eu não tinha a menor idéia do que a guerra significa para eles.

    E é uma pena, que nosso povo não os considera como heróis.

  • pedro nogueira

    Post maravillhoso como sempre cardoso. Acho que você deveria começar a escrever um livro (que não seja tecnico), eu compraria sem duvida alguma. Não são todos os escritores que conseguem retirar emoções fortes de seus leitores e você consegue isto.

    Sobre o filme Herois, não tem como colocar o projeto em um site como Kickstarter ou algum outro de captação de recursos ? eu ajudaria se fosse dessa maneira.

  • Gabriel

    Perdi meu pai, velho soldado com 90 anos, e em 17/01/2011 o sepultamos em Minas Gerais.
    Apenas um brasileiro simples, íntegro, devastado por Parkinson.
    Ex–combatente da FEB, radiotelegrafista, dono de uma fé de ofício comovente, que atestava o rigor da luta no inverno Italiano.
    Você não o conheceu, não nos conhecemos, mas permita-me ver no seu post uma homenagem a ele e lhe agradeço sinceramente.

  • Eduardo

    Não sou dos usuários que comentam muito, quem dirá algo sobre um texto do Cardoso, grande pára-raios de gente mesquinha, mas não podia deixar de externar minha satisfação por aqui. Minha alfabetização começou com Júlio Verne e coleção vaga-lume, além de um velho livro amarelado sem capa, chamado "Senta a pua!". Esse livro inspirou o documentário citado no artigo e é de lavra de Rui Moreira Lima, membro da FAB, com 94 missões de guerra, afastado da carreira militar em 64, brigando pela anistia até hoje. Cardoso, um sonoro ADELFI

  • Renan

    Bom, pelo que sei, o Exército vermelho também se posicionou a favor do povo quando houve a transição para um regime democrático na URSS, ou seja, é até possível que haja uma atuação nobre por parte de um exército, mas neste caso, o exército não assumiu o poder para comandar uma transição. É difícil acreditar que um exército que toma o poder para “garantir a ordem” não irá continuar querendo exercê – lo por um bom tempo.

    Quanto ao nosso julgamento sobre os miltares, houveram muitos fatos para que este fosse construído assim. O mais recente, e talvez mais forte, seja o da existência da ditadura. No caso da FEB, talvez se julgue – a mal devido ao papel de moeda política utilizada por Getúlio Vargas. É possível ter em mente criticamente esse aspecto, mas também examinar de uma maneira isenta os atos dos soldados brasileiros durante a guerra, além do que, é sabido que estes tiveram sua contribuição para o fim do Estado Novo.

    Em relação ao filme do Silvio Back, que eu até então desconhecia, e por isso, fui buscar algumas informações a mais sobre ele, acredito que a intenção dele foi mesmo atacar o uso da FEB como veículo de propaganda, e de um heroísmo mítico, que tem pouca relação com o heroísmo real.

  • Aqui no Brasil a historia sempre é distorcida ou esquecida. Onde vendo o Oscar lembrei de um dos seus textos Cardoso, mais um sobre educação onde se investe muito em pessoas que não chegarão a lugar algum, ou acontecerá uma exceção entre milhares… A Maria Beltrão pedia para os brasileiros torcerem pelo documentário "Lixo Extraordinário", e essa é a leva, no lugar de ficarmos chocados com o inferno que alguns vivem, vemos pessoas vivendo no lixo, como se aquilo fosse algo normal. Arte não tira essas pessoas da miséria, não muda governos ou a educação. Como você lembrou, temos heróis de verdade. Mas segundo o status quo BBB dá mais audiência.

  • bdebigode

    Se não me engano, o filme não conseguiu emplacar como longa (provavelmente faltou interesse nos financiadores) e acabou virando web série.

    Esse é o link do primeiro episódio: http://www.em.com.br/app/noticia/especiais/herois

    Abraços Cardoso

    • O filme foi pensado como média mesmo, pra servir de piloto para uma série de tv

  • Quem se interessar sobre a participação dos pracinhas brasileiros na 2ª Guerra, pode acessar o site http://www.anvfeb.com.br/, cujo autor faleceu recentemente e como eu era, filho de militar que participou da campanha na Itália. O site conta um pouco da campanha da FEB em solo Europeu. Vale a pena conferir

  • José Franklin

    Um breve relato da participação do emu pai na 2ª Guerra:
    O Sub Ten Franklin Ferreira de Moraes, Identidade Militar de número 3G-73.393, seguiu para a Itália no dia 22 de setembro de 1944 a bordo do navio norte-americano General Mann com 5.075 militares comandados pelo Gen Oswaldo Cordeiro de Farias. Este grupo formava o 2º Escalão da Força Expedicionária Brasileira. Seu desembarque no porto de Nápoles aconteceu no dia 06 de outubro de 1944 de onde seguiu de lancha até o porto de Livorno, dias depois para San Rossore onde recebeu instruções do 5º Exército Americano. O 9º Batalhão de Engenharia foi a primeira tropa de engenharia a atravessar o oceano Atlântico para combater em outro continente. Ele pertenceu a 3ª Cia de Engenharia, foi o primeiro elemento do 9º BE a entrar em ação em 9 de novembro de l944, no teatro de operações da Itália. O Sub Ten Moraes participou de diversas batalhas, entre elas Monte Castelo e Montese. Após a rendição dos alemães em Fornovo Di Taro e Collecchio as tropas brasileiras foram deslocadas para a cidade de Francolise para que aguardassem o embarque de retorno ao Brasil. O embarque do Sub-ten Moraes com destino ao Brasil aconteceu em 26 de julho de 1945 no porto de Nápoles, no navio Pedro II. Sua chegada ao Brasil ocorreu no dia 13 de agosto de 1945 encerando assim sua importantíssima participação no Teatro de Operações da Itália. Foi condecorado com a Medalha de Campanha e Medalha de Guerra.