Se eu pudesse falar a Língua dos Blogs…

Nota: Este artigo não é sobre miguchês.

A arte de escrever tem suas nuances. O meio determina a forma. Um texto televisivo é diferente de um texto radiofônico. Um bom exemplo são as diferenças entre legendas e traduções para dublagem. Todo adolescente que faz 6 meses de CCAA e se dispõe a traduzir sua série preferida acaba, em uma primeira fase, com legendas de três linhas.

Quando a velha mídia veio para a Internet, trouxe sua forma de escrever, os textos são rigorosamente iguais aos que são publicados nos jornais e revistas, por isso também temos a virtual ausência de links. Redator de site de jornal não linka por ordem superior E por falta de hábito. Links não funcionam na mídia impressa, e quase todo veículo que tenta, faz caquinha. Já viu aquelas colunas pequenas, com uma URL quebrada? Ou o diagramador mete uma quebra de linha e torna a URL falsa (como saber se o hífen existe mesmo?) ou temos aquele espaçamento justificado onde as letras da URL se separam para ocupar a linha inteira.

A melhor saída para a mídia impressa é, ironicamente, avisar “para os links desta matéria, consulte nosso site”.

Quem escreve em blogs, entretanto, não precisa ficar preso a esse tipo de restrição. A menos que você pretenda requentar reunir seus textos em um livro posteriormente, pode usar e abusar dos recursos de tipografia online, além de hyperlinks, formatações, etc.

Não é algo que substitúa o conteúdo, mas é algo que o enriquece. Algo que torna o texto online mais versátil que o impresso. Um texto tradicional tem duas possibilidades: Ou você assume que seu leitor sabe do quê está falando, ou então explica tudo, timtim por timtim:

Texto assumindo que o leitor sabe do que você está falando:

Fidel chama o Raúl. Por pouco não foi o Hugo.

Texto assumindo que o leitor não sabe do quê você está falando:

Fidel Castro, ditador cubano há décadas no poder renuncia em benefício de seu irmão, Raúl Castro. Hugo Chavez, presidente da Venezuela, foi cogitado como alternativa por alguns analistas.

Texto usando recursos online:

Fidel chama o Raúl. Por pouco não foi o Hugo.

Quem entendeu, entendeu. Quem não entendeu, clica.

Com o uso de links podemos transformar um texto de 10 linhas em três, sem prejuízo ao entendimento. Quanto mais informações o leitor tiver, mais ele aproveitará, pois não precisará ler nada que não seja necessário, ao mesmo tempo em que o leitor que não conhece os detalhes em discussão tem oportunidade de aprofundar seus conhecimentos. Você literalmente ensina a pescar, sem encher o saco do pescador profissional que está no mesmo barco.

No texto online também somos mais flexíveis quanto ao uso de formatações, uma simples variação no tamanho da fonte passa um significado, mas não conte para ninguém, ok?

O uso criativo de tipografia vai além. É comum blogs de respeito reconhecerem seus erros com a tag , que marca um texto como apagado, mas o recurso serve para outros fins, em geral humorísticos, até em sites como o do verme canalha desprezível escroque meu amigo Morróida.

Tags falsas são um recurso já não tão recomendado, exceto se sua audiência for geek, do contrário não entenderão o significado completo do recurso. Bem, quem mandou não trabalharem com tecnologia?

Visita ao Estadão

Um outro recurso é utilizar o nome dos arquivos de imagens para passar “mensagens subliminares”. É excelente para implicar discretamente com alguém. O elemento ALT, dentro da tag de imagem, também pode ser usado. No caso da imagem acima, parando o mouse em cima provavelmente você verá algo interessante, pois o elemento ALT está definido como:

alt=”Visita ao Estadão”

O texto online também pode “cometer” emoticons, algo impensável em um texto mais formal. Mas, se fôssemos formais não seríamos blogs ;)

A Poesia Concreta fez muitas experimentações com forma, mas não gerou nada de útil <== isso vai dar polêmica. No caso do texto online nós efetivamente agregamos conteúdo, com a inclusão da forma como… forma de comunicação.

O importante é que temos mais recursos para passar nossa mensagem, e devemos utilizá-los. Eu disse que o meio determina a forma, mas como menor denominador comum. Um texto radiofônico soa redundante na TV, mas pode ser utilizado. Um texto jornalístico clássico funciona online, mas soa redundante. Nosso texto deve ser diferenciado pela qualidade, mas também pela forma, do contrário escrever online não será mais do que escrever para qualquer outro veículo, de papel ou não. E gente fazendo isso é o que não falta. Viva a Diferença, especialmente se nossa diferença for melhor.


O Contraditorium vive de doações. Não veiculo anúncios no blog. Somente sua colaboração me incentiva a escrever artigos cada vez melhores, sem rabo preso com anunciantes, partidos ou militâncias. Prestigie essa liberdade, faça uma doação. Todo valor é válido, o que vale é a intenção e o seu cartão de crédito passar. Use o PagSeguro no botão abaixo ou via PayPal com o email cardoso@pobox.com. Toda moeda é bem-vinda, desde que seja de país com luz elétrica e água encanada.

Leia Também:

  • Artigos em blogs parecem muitas vezes com uma conversa civilizada em que você coloca sua opinião, dá mais informações sobre o assunto (link) e ainda espera ouvir os outros pontos de vista (comentários), e se mudar de idéia é só escrever que mudou ou cometeu um erro, se tem alguém nesse mundo que ainda não entendeu como um blog é um recurso fabuloso para escrever e se comunicar deveria ir pra Cuba, lá eles não gostam muito de blogs…

  • A diferença é justamente esta. Pra mim não faz sentido ter textos vinculados em blogs completamente iguais as edições impressas.

  • Everton

    Essa prejudicou um pouco o entendimento:

    "Fidel chama o Raíl. Por pouco não foi o Hugo."

  • Consertado, obrigado.

  • Lindo, genial, muito bom. Definitivamente um post que eu classifico como utilidade pública.

  • Fabrício

    Cardoso, não sei o motivo mas o teu texto me lembrou muito esse aqui…
    http://www.uatarreu.com/2008/02/25/30-dicas-para-

  • A única coisa boa disso tudo foi a bunda da loira na esquerda da foto do jurassic park.

  • Fabrício, o recurso de exemplificar com o erro é bem antigo, eu fiz pela metade, ficou completamente meia-boca, o texto que você linkou está muito mais bem-amarrado.

    Quanto tiver tempo e paciência vou fazer um post explicando todos esses recursos de estilo, mas é coisa pra uma série de artigos, pra ficar bem-feito.

  • Só preciso dizer que o artigo ficou muito bom.

  • Manual Cardoso de redação online!

  • Manual Cardoso de redação online Ultimate Plus!

    "O Guia Definitivo!"

    Até que saia o primeiro "Service Pack"

  • k

    opa, faltou marcar aqui:

    Viva a Diferença, especialmente se nossa diferença for melhor.

    ;)

  • k

    droga, o wordpress comeu minhas tags =/

  • Marcos M.

    Aproveitando o assunto, alguém conhece ou poderia indicar algum livro com técnicas de boa escrita? Pode ser webwriting ou redação "off" mesmo. Grato.

  • Cardoso, só uma dica: vc falou sobre o uso do ALT em imagens. O ideal é usar o elemento TITLE. O ALT é para incluir o texto alternativo à imagem, caso ela não carregue.

    Na prática, qual a diferença? NO IE nenhuma. Mas no Firefox o texto ALT só aparece se a imagem não for carregada. Já o TITLE aparece sempre. ;)

  • Um amigo meu diz que meu blog é como um baú onde eu junto informações de todos os tipos. Este teu post vai direto para o meu del.icio.us. É uma obra-prima sobre a arte de blogar. Um detalhe. Vim do meio dos blogs juvenis. Eles sempre escreveram miguxa com [x]. o ch foi proposital para denotar seu desconhecimento destes blogs?

  • Mirian

    Careful: to assume is a false cognate!!!

  • Excelente post Cardoso, principalmente na parte sobre mensagens subliminares nas imagens. Essa é nova pra mim. Lendo e aprendendo!

  • Estou adorando essa sua fase bloguistico/educativa… parabéns pelos 3 últimos posts, todos muito inspirados!

  • Pingback: O problema dos sites de jornais é mais primário do que reza a vã filosofia blogueira | Prensa 3.0()

  • Olha só o que eu encontro vinte e quatro horas depois de seu post.
    http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/not

    Bem no coração da matéria.

  • Extra! Extra! A folha deu um link!!!

    Agora sério: Veja o que eu disse; eles repetem a url, não sabem linkar como gente normal. Imagine se fosse uma URL como a do próprio artigo…

  • Cardoso, mais uma pra sua "intifada" contra a imprensa: a revista americana Maxim (estilo Playboy) admitiu que resenhou alguns discos sem ouvi-los…

    Resumi a notícia no meu blog, mas a fonte original tá aqui: http://news.bbc.co.uk/2/hi/entertainment/7268597….

  • Matou a pau com esse artigo hein. Parabéns!

  • Fabrício

    Nah, eu conheço. Quanto a escrever outro texto espero que você realmente arrume tempo e paciência e não faça como o KID que prometeu há anos o texto das patricinhas intercambistas e nunca sequer pensou em escrevê-lo. =P

  • Quaaaase! o link que a folha colocou tá quebrado!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  • Parabéns, ótimo post. Daqueles que a gente não quer que acabe. Gostei dos exemplos, foram inteligentes. Sempre tive consciência do poder do hiperlink na internet, mas nunca havia pensado no link como um recurso de estilo para escrever tanto para leitores leigos quanto para experientes de maneira que o primeiro não fique boiando e o segundo não leia o que já sabe.

  • Pingback: Alexandre Sena » Blog do Sena » Enquanto meu post não vem…()

  • Pingback: A hora e a vez das Mídias Sociais | Boombust()

  • não conhecia o texto.. e esqueci de onde vim parar aqui!! hahaha

    mas muito bom! Só achei estranho a indicação da tag ALT ao invés da tag TITLE no link… "alt has been deprecated"

  • Ok, após ler essa definição comparo Blogs à Nietzsche: todo mundo só ACHA que entende…

  • Excelente post.

    Diferentes mídias, têm por obrigação, maneiras diferentes de passar a mesma mensagem. Você conseguiu exemplificar muito bem essas diferenças.

    Parabéns!

  • Que belo post Cardoso.

    Parabéns !

  • Thiago Santana

    ô Cardoso, algum motivo especial pra você não tá liberando meus comentários?

  • Santiago Carvalho

    Uma aula de como blogar!
    Parabéns!!!!

  • Texto incrível.

    Parabéns!

  • Pingback: Olho por olho, dente por dente « Takipariu!()

  • Pingback: Limitações da blogosfera científica ou O que um elefante tem que eu não tenho? « Da água viest()

  • Pingback: Domingueiras « Batata Transgênica()