Batman In Rio

Embarcando na onda arqueológica, achei outro texto. Desta vez meu mesmo, com uma pequena crônica contando uma aventura pra lá de bagunçada do Batman no Brasil. É de 1993, estava meio datada. Tirei algumas referências ininteligíveis para a juventude, como selo-pedágio, mas em essência o texto continua o mesmo, com todos os seus (inexistentes) méritos.

© 1993 Carlos Cardoso

Batman in Rio
Carlos Cardoso

Sabem quem pendurou as chuteiras e está no analista? O Batman.
Exato. O morcegão está emocionalmente perturbado e desfruta de longas férias, sem data para voltar ao trabalho. Tudo começou quando o justiceiro de Gothan City seguiu um grande mafioso até o Brasil…

_Isso é meu bat-computador portátil, seu guarda.
_Sei -disse o guarda da alfândega- todo mundo dá uma desculpa. Muamba é muamba. Cadê a nota fiscal? E o senhor vai pagar multa. Esse troço deve custar bem mais de quinhentos dólares.
_Eu quero falar com uma autoridade policial. Eu sou um agente da lei e exijo uma autoridade. Onde está o chefe daqui?
_Olha, o doutor Mendonça saiu pra almoçar e não tem hora pra voltar. Ele tinha que levar o carro na oficina, eu acho.
Incrédulo, o homem-morcego consultou o relógio e disse:
_Como saiu pra almoçar? São 10h30min da manhã!
_Eu sei, mas hoje ele trabalhou até tarde. Saiu ainda agorinha.
Como Bruce Wayne é podre de rico, Batman pagou as multas e foi retirar o batmóvel no terminal de carga do Galeão. A pintura estava arranhada.
Usando o sistema de navegação por satélite do batmóvel, ele conseguiu achar a Dutra, mas foi logo parado no primeiro posto da Polícia Rodoviária:
_Documentos, chefia.
_Eu estou com pressa, policial. Eu sou o Batman e…
_Tá bom, eu sou o Lazaronni. Agora cadê o IPVA?
ahn ?
O guarda virou para seu companheiro e falou:
_Mais um paulista. Esse pessoal adora se fingir de desentendido.
O confuso vigilante viu que seria detido pela polícia brasileira, e para não criar um incidente internacional, falou:
_Seu guarda, não podemos dar um jeitinho? Quem sabe a gente conversando…
_Mas claro -disse o guarda abrindo um sorriso- conversando a gente resolve tudo, doutor.
Alguns minutos atrasado e alguns dólares mais leve o vigilante prosseguiu seu martírio por terras brasileiras.
_Com licença, moço. Quer que eu tome conta ?
Em pleno centro de São Paulo, o crioulinho com uma flanela na mão esperava a resposta do morcego.
_Não é preciso, meu jovem. O bat-alarme pode evitar qualquer tentativa de roubo do batmóvel.
_Ih, doutor. Isso não tá com nada. É só achar o fio, cortar e fazer a ligação direta.
_O senhor não quer comprar uma tranca?
Outro menor se aproximava, com um sortimento completo de trancas, segredos, alarmes e break-lights.
_Tem luz de freio também, doutor. Não vai levar?
Antes de ir embora o morcego não resistiu e levou um break-light com o símbolo do Batman, que tinha encalhado da época do filme.
Naquela altura, ele já estava ficando curioso. Ninguém havia reparado em seu uniforme. mesmo em Gotham City as pessoa ainda se assustavam com o disfarce do morcego. Ele não resistiu e perguntou a um transeunte que passava (aliás, os transeuntes não fazem nada além de passar):
_Desculpe, cidadão, mas vocês não se assustam comigo? Você não vê nada de errado com a minha roupa?
O homem coçou a cabeça, olhou o homem-morcego de alto a baixo e deu o veredicto:
_Olha, meu, é o seguinte: Estranho eu não vejo. Mas cê podia botar mais cor, umas lantejoulas, sei lá. E a capa, não tá muito legal. Você é de Pelotas? E mais uma coisa: Cê tem outro convite pro Ilha Porchat pra me arrumar? O baile é semana que vem e os convites acabaram.
Sem entender direito, Batman anotou a referência à Pelotas para futura pesquisa e prosseguiu sua missão. Agora ele precisava achar a delegacia do Bixiga. “Vai ser fácil” pensou o morcego, enquanto encostava o carro para perguntar a um cidadão.
_É fácil, meu! Segue em frente, aí cê dobra no farol. Então vira pra esquerda no Tietê e vai em frente toda vida, quando cê vê um bondinho entre dois morros, faz o retorno e se informa!
O batmóvel seguiu direto pela Dutra, e só na metade do caminho Batman percebeu o adesivo “Amo São Paulo Voto Maluf” que haviam colado no vidro do carro.
Quando estava pensando em voltar para tomar satisfações, o bat-fone tocou. Era o contato brasileiro de Batman na polícia federal, avisando que Don Raviolli, o mafioso, havia fugido para o Rio de Janeiro.
_Já que estamos por aqui… -pensou o morcego-
No centro do Rio, ele teve que deixar uma grana na mão de um guarda para conseguir uma vaga. Do Castelo ele andou até a Praça Mauá, na sede da polícia federal. No meio do caminho não resistiu e levou um chaveiro do Batman que um garoto vendia por apenas cinco dólares, porque ele conseguiu um desconto de 50%.
_Como assim um parceiro, delegado ?
_É fácil -respondeu Tuma- você vai precisar de alguém que conheça o Brasil.
_Certo, mas e meu disfarce?
_Não precisa -disse Tuma- estamos no carnaval. Você ainda usa aquele carro rabo-de-peixe?
_N¦o ! Aquele estava ultrapassado. Troquei por um modelo 88.
_É uma pena. No barracão da Mangueira ninguém desconfiaria do seu carro.
_O que é mangueira?
_Deixe pra lá. Aqui está seu parceiro.
Pegando a foto, o morcego perguntou:
_Detetive Basílio, 59 DP. Ele é durão?
_Durão? O Souza é conhecido como “faxineiro da baixada”. Ele é tão casca-grossa que quando vai à igreja quem confessa é o padre.
_Parece bom. Só mais uma coisa, delegado. como eu chego até a 59 DP ?
_É fácil…
A cara do morcego por baixo da máscara deve ter sido linda, quando ele voltou pro batmóvel de descobriu que tinham levado o toca-fitas.
_Detetive Souza, eu pressumo.
_E você é o Clóvis Bornay.
_Quem? Não, eu sou o Batman, o vigilante de Gotham City.
_Sei, sei. Desculpe, eu não li direito o telex do Tuma. Bonita roupa. Aonde você comprou tinha pra homem?
Pra sorte do detetive, Batman não falava português muito bem, e não entendeu.
Logo depois eles saíram, iniciando as investigações:
_Vamos parar ali naquele bar, morcego.
_Certo -disse Batman- vamos interrogar os criminosos e descobrir o paradeiro do Raviolli, não é?
_Não, eu só vou tomar um café e comer um Bauru. Eu ainda não tomei café.
A fama do morcego já havia se espalhado pela cidade, e mesmo no carnaval não é difícil reconhecer um cara vestido de malha justa, capa esvoaçante e orelhas pontudas. O único lugar que o Batman poderia ficar incógnito era no Municipal. Mas no momento ele estava no Bar e Restaurante Nossa Senhora de Fátima, em Villar dos Telles.
_Bom dia, menino Basílio. Vais querer o d’sempre?
_Claro, seu Manoel.
_O menino d’orelhas pontudas vai querer algo ? Quem sabe uma cachacinha?
Já desiludido com sua falta de moral, o morcego gostou da idéia:
_Sim, obrigado. Normalmente eu não bebo, mas vou abrir uma exceção.
_Dessa nós não temos. Serve 51?
_What?
_Serve uma dose aí pro meu amigo, seu Manoel.
“O Coringa iria adorar isso” – pensou Batman, engolindo a cachaça.
_Aí, orelhudo! Como vai essa força?
O desconhecido se aproximou do balcão, sentando ao lado do Batman. Todo mundo no bar observava o sorriso irônico do rapaz.
_Saia daqui, meu jovem. Não quero conversa.
_Desinfeta, pilantra. -Disse Basílio-
_Calma, doutor -falou o citado pilantra- não vou aliviar a carteira do morcegoso, não. -e se virou para o Batman – Só estou a fim de um bat-papo.
Ele voou pela porta, foi parar do outro lado da calçada. Só não sabia se gritava das fraturas ou ria da piada infame. O pessoal no bar sabia: Riam como nunca. Alguns se jogavam no chão, outros batiam nas mesas e apontavam para o morcego, que de pé, em posição de combate e fulo da vida, disse:
_Vou acabar com essa alegria!
Ele pegou cápsulas de gás em seu bat-cinto, atirou no chão formando uma espessa nuvem de gás. Mas as gargalhadas continuavam.
_Como vocês podem continuar rindo? Qualquer bandido de Gotham foge quando jogo meu gás. Qual o segredo?
Basílio respondeu:
_Não tem segredo, ô de asa. É que a PM quase todo dia joga gás lacrimogêneo no pessoal. Já virou hábito. Tem gente que acha mais divertido correr atrás de piquete esperando a tropa de choque do que comprar éter na farmácia.
_Que país, que país!
Todo brasileiro fala mal do país, mas se um gringo diz qualquer coisinha ele vira patriota e toma as dores da nação:
_Calma aí, urubu. Não vem dizendo que a coisa não é séria, que você não tem moral pra dizer isso.
_Como não? Eu sou o maior combatente do crime-
_É? Só que eu pelo menos nunca fui afogado em sorvete, andei com um viadinho ao meu lado e dirigi um carro alegórico disfarçado de viatura.
Indignado, Batman retrucou:
_Isso foi no passado. Agora eu luto contra o crime, desmantelo cartéis, pulo de pára-quedas, ando de jato, piloto a bat-lancha e a bat-moto, até o bat-tanque de guerra eu já usei.
_Grandes merda. Já teve um presidente aqui que fazia tudo isso e ganhou um pé na bunda.

O morcegão está no asilo Arkhan, na ala para combatentes do crime estressados. Por favor, mandem cartões. Fará bem à moral dele.


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