Adeus Aos Blogs


E aqui acho necessário confessar que comecei a escrever este blog quando não havia vida na minha vida. Aquilo era um arremedo de vida. Se tanto. Ficar em casa escrevendo era muito melhor do que sair para o mundo. Para as ruas cinzas das cinza Curitiba.


Calma. Eu sou adepto do lema “se beber, no blogue, se blogar, não beba”, então não escreveria algo assim. Quem escreveu foi o Polzonoff, em mais uma de suas despedidas do mundo dos blogs.

Mensagem inclusive que foi lida pelo Rafael como argumento para minha hipótese de que muitos blogueiros usam o blog como terapia. E é verdade. Polzonoff está em Nova York agora, caro leitor. Não precisa mais de nós. Os leitores, que tanto ajudaram nos tempos ruins hoje são um incômodo, pois

A cidade exige muito de mim. Há milhares de coisas para ver. Horas e horas para serem gastas no Metropolitam Museum of Art, na companhia de Paulo Francis e o outro fantasma. Há cinema, há livros interessantíssimos (…) Cada minuto que passo em frente ao computador, portanto, é uma angústia. Sinto-me como se estivesse perdendo algo muito importante. E de fato estou.

Mais ainda, os novos blogueiros não são diversidade, são competição. Mesmo os muitos que se inspiraram nele, vendo o exemplo de seu blog e seguindo-o. Ele se gaba de estar na Internet desde 1996, mas nunca entendeu seu propósito. É muito, muito triste para mim, que sempre estimulei todo mundo a escrever, ler de um blogueiro respeitável algo como:

Os blogs, por conseqüência, também se vulgarizaram. No começo éramos uma espécie de casta. Todo mundo conhecia todo mundo. Havia uma comunidade, por assim dizer. Depois os blogs incharam. Todos diziam (dizem) a mesma coisa. Simplesmente não vejo motivo para ser mais um na multidão. Não tenho vocação para isso.

Se em dez anos você não se destacou da multidão, a culpa não é da multidão, meu caro. E você se destacou, você foi uma referência. Será que não ser a ÚNICA referência é o problema? Eu entendo o conceito de Onipotência (ao menos como aspiração) mas será que podemos nos dar ao luxo de sermos um Deus Bíblico, ciumento e vingativo? Os tempos são outros, o panteão aumentou, temos que conviver com adoradores dividindo sua fé entre nós e outras divindades, meu caro.

De modo algum eu quero que alguém diga “só leio seu blog”. Minha resposta-padrão é “então você tem problemas”. Também não quero ser de nenhuma casta, panela ou A-list. Não quero títulos ou prêmios. Prefiro minha parte em dinheiro. A vida é um palco, um blog não.

Essa despedida do Polzonoff foi uma facada curitibana nas costas, como leitor me sinto traído. É a namorada doente que quando se cura vai embora pois ao seu lado se lembra dos momentos ruins da doença. É, com todas as letras, o “arrumei coisa melhor para fazer”. Ele diz que nasceu para escrever e escreve bem. Concordo plenamente. Me entristece é a posição de elite, tratando o blog como uma cartela de Prozac, uma embalagem de antidepressivos onde desenhava girassóis, enquanto aguardava seu efeito.

Como toda criatura infiel, ele não pesa a seriedade de seus atos, muito menos o efeito em quem o admira. O leitor, que na crônica e no romance é um cúmplice, se torna no blog apenas um anticorpo, uma célula amorfa do sistema imunológico, destinada a curar a doença do autor e perdendo qualquer razão de ser quando isso é alcançado.

Caro blogueiro; não faça isso. Não traia seus leitores. Procure ajuda profissional, seja uma prostituta ou um psiquiatra. Mas não use seus leitores. Eles são importantes demais para isso. Principalmente, eles entendem um “hoje não estou bem, então não postarei nada, desculpem-me”. Seus leitores se acostumam com seu estilo, reconhecem seus estados de humor e até lêem suas mensagens subliminares. Eles mandam emails perguntando se você está com problemas, oferecem ajuda, eles estão do seu lado.

Será que eles não merecem algo melhor do que “preciso resgatar uma forma de escrever com mais nobreza”? Seu blog, você é importante para eles. Mas não para sempre. Acredite, investir em relações unilaterais é muito doloroso, difícil e frustrante. É cômodo para quem está do outro lado, ainda mais se for um Blogueiro Infiel, mas muito, muito ruim para quem dispende o esforço, do lado de cá, de quem lê.

Eu não nasci para escrever, Polzonoff. Aliás, ninguém. Todos nascemos analfabetos e sem bagagem, mas em nossas infâncias, se tivemos sorte, aprendemos a gostar de histórias. Aprendemos a entender como elas são tecidas, o que as torna interessantes. Como disse em algum outro lugar, eu vim da Nobre Arte da Literatura de Verdade, tenho meu nome em 11 livros, ISBN, registro na Biblioteca Nacional e tudo. Não me impressiona.

Pretendo voltar aos livros, mas como acessórios dos blogs, não o contrário. Considero o convívio com os leitores muito mais nobre e significativo, busco sempre oportunidades de encontra mais temas para escrever, aqui. Para eles. Eu invejo sua viagem a Nova York, meu primeiro pensamento foi quantas coisas legais para blogar eu encontraria. O quanto de histórias eu contaria, e quantas receberia de volta, nos comentários.

Acho que essa é a diferença entre nós. O blog faz parte de minha vida, mas não como muleta, e sim como sapatos de corrida. Sapatos mágicos. Eu quero que ele me acompanhe. Não me envergonho dele. Nem o considero, como você, um peso e um fardo. Você fala de seus 30 mil leitores, mas o adjetivo “incríveis” é anulado por todo o resto do texto. Eles parecem culpados pela responsabilidade que você assumiu com o blog.

Eu acho uma dádiva, conseguir leitores não é fácil, em fevereiro de 2006 eu tive incríveis 428 unique visitors, e isso já foi um feito. Se em agosto cheguei próximo de 40.000, grande parte do mérito é deles, que influenciaram os textos, colabararam, comentaram e espalharam minhas idéias pela blogosfera.

Eu não considero isso um peso. Não é um Karma. Não é meu Pagh. Eu escolhi. Quando começo a escrever um texto e penso em quantos irão lê-lo, isso só me afeta positivamente. Claro, meu blog pessoal, com tantas outras visitas, se tornou popular demais, isso me intimidou, mas descobri que não preciso tanto assim de um “Diário do Cardoso”, que posso ser feliz escrevendo besteira também. Acima de tudo, escrever para uma audiência grande e crescente é um privilégio, não um fardo.

Respeito sua decisão, Polzonoff, assim como sei que você respeitará a minha, de não ler mais seus blogs. Eu não reajo bem à traição, de nenhum tipo, e mesmo sendo o menos incrível dos seus 30.000 leitores, ainda assim me sentia parte de alguma coisa, que você agora afirma que nunca existiu.

Vá em paz, meu caro, mas não volte. Não para mim. Lembre-se do que Milton disse, “A inocência uma vez perdida não pode ser recuperada.”

(olhando agora essa frase de fechamento ficou meio gay, mas estou atrasado para um almoço…)


Technorati : , ,


O Contraditorium vive de doações. Não veiculo anúncios no blog. Somente sua colaboração me incentiva a escrever artigos cada vez melhores, sem rabo preso com anunciantes, partidos ou militâncias. Prestigie essa liberdade, faça uma doação. Use o PagSeguro no botão abaixo ou via PayPal com o email cardoso@pobox.com. Caso você tenha uma carteira PicPay,meu usuário é @carloscardoso. Caso não tenha e queira uma forma de transferir pequenas (ou grandes, de preferência grandes) quantias sem taxas, é só se inscrever. Toda moeda é bem-vinda, desde que seja de país com luz elétrica e água encanada.

Leia Também:

  • Cardoso, você se leva a sério demais.

  • Não tem problema cardoso eu tô aqui!!!

    AHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUA

    (ficou meio gay, assim como sua última frase, mas não podia perder a piada)

  • pelo contrario, acredito que o Cardoso não se leva a sério :)

    mas vem cá! voces leram o texto mesmo? não entendi o porque ele "se leva a serio demais"

    parafraseando o Cobalto: eu estou aqui Cardoso!

    Pronto, todos baldeamos(*), mas não perdemos o humor :)

    (*)Balde: termo cearense para gay!

  • Eu gosto muito do que o Polzonoff escreve, mas (ou até por isso) concordo inteiramente com você.

    Fiquei decepcionado com a idéia dele de que só vale a pena ter um blog se ele o torna uma pessoa influente e referencial. Muita gente tem blogs ótimos e não está nem ligando pra isso.

    Sempre vi o blog como uma ferramenta para você mostrar um pouco de si e fazer amigos, encontrar sua turma. Acho ótimo que todo mundo tenha blog. Sim, existem aqueles que se pretendem a ser influentes, e eu não acho nada demais, só que isso não pode ser a única motivação de todos os blogueiros. Quando todo mundo é referência, ninguém é.

  • É Marketing, GL.

    Cobalto, sossega o facho ;)

    Pois é, Marcus. Uma vez alguém comentou que eu coloco muitas regras aqui. Perguntei quem o autor do comentário achava que eu era para ditar regras a alguém, e porque diabos ele estava preocupado com isso, assumindo que ambos concordávamos que eu não tinha autoridade nenhuma para ditar o que quer que fosse.

  • Que pérola de elitismo provinciano e deslumbrado esse post de despedida do Polzonoff.

    E realmente ele precisa de tempo para conhecer melhor Nova York, afinal ficou só nas citações óbvias e vagas sobre a cidade.

  • Hoje mesmo no Orkut (sim pessoas, eu frequento aquele antro hehe) alguns elitistas escritores chamaram nós, pobres mortais blogueiros de "autores blogueiros" de uma maneira tão prejorativa, como se TODOS os blogs fossem apenas feitos de gifs, cópias de artigos e diário teen.

    É uma pena a pessoa se achar tão mais intelectualizada que não pode escrever em um blog. Uma pena mesmo. Ainda mais quando a desculpa é ir para Nova Iorque! Ô coisinha provinciana como disse a Leila…heheh

    Mas continuo aqui, fazendo algo pelo meu blog, mesmo que não consiga muita coisa, pelo menos tentei.

    Abçs Cardoso!

  • Dom

    Pois é… uns com tantos e outros com poucos. No entanto, apesar de meu contador estar bem aquém do exposto neste texto, valorizo meus leitores, e digo até que são dos meus maiores companheiros, mesmo quando entre eles estejam pessoas que nunca vi (e genralmente são). Gosto dos escritos do Polzonoff, e me parece que você acaba de ganhar mais um leitor.

  • Por um breve momento quase infartei, mas depois eu li e vi que não era nada muito grave. Ufa!!!!!

    Beijosss

  • Pingback: Charles? Que Charles? » Blog Archive » Só para pegar no pé()

  • Wow!

  • Isto que eu chamo de masturbação literária, vai gostar de escrever assim na China…

    Não conheço o blog do indivíduo, mas o texto me deixou até com vontade de conhecer.

    Mas acabou, nem vou me dar ao trabalho.

    PS.: Este blog também foi bloqueado no proxy do trabalho…

    Está a caça aos blogs, lá, logo log será o meu :(

    Abraço

  • Zictor

    Cara, quase me senti mal com este texto, porque abandonei o fotolog das minhas viagens depois que voltei. Acho que vou retomá-lo e compartilhar mais fotos com as pessoas.

  • Eu escrevo em blogs por quê preciso treinar a forma com que eu escrevo e expresso minhas idéias. Cometo erros de português primários as vezes, outras vezes minhas idéias ficam confusas outras vezes.

    Não quero tratar meus leitores como lixo. Mas é algo que faço mais por mim que por eles.

  • Pois é, Cardoso, certa vez, quando lhe disse com todas as letras que ele sofria de "Síndrome do Jeca Deslumbrado", ele subiu nas tamancas comigo. Agora percebo que os sintomas ainda não desapareceram. É triste. Mas se for melhor para ele, que assim seja.

  • Quem abandona um blog e diz: "tenho coisa melhor para fazer" é por que sente alguma culpa por ter um blog, uma vez que de uma maneira geral as pessoas pensam que o blogueiro é um desocupado. É como você escreveu num post há tempos atrás, nos acostumamos com as idéias passadas por nossos avós que profissão/atividade nobre é a de médico, engenheiro ou advogado. O que se lamenta.

  • Gostava dos textos do Polzonoff… Ele se foi. E daí? Existem outros tão bons quanto.

    Não vou gastar mais meu português com isso. Ele não gastará mais nenhum pelos seus ex-leitores.

  • pra que este drama todo? quer ir embora? "então vá! faça o que tu queres pois é tudo da lei!" (Raul Seixas & Paulo Coelho em Sociedade Alternativa)

  • oi Cardoso,

    como comentei no blog do Marcus, blogar é um esporte, e daí encontro sua analogia com sapatos de corrida, clap. há algum tempo conversei com um jornalista que escreve num semanário e ele disse-me que o medo de ter muitos leitores (e comentários) era a impossibilidade de interagir com todos eles (e o cara é o melhor nesta arte). é um paradoxo, não?

    abraços. sempre ótimo teu blog. uma das descobertas mais felizes de 2006

  • É o típico caso de dizer 'baixa a crista, rapá'…

    Conheço gente que assina página em primeiro caderno de jornal de domingo e não tem de si uma opinião assim tão generosa. O Polzonoff é bacana mas viajou alto nesta…

  • Quando li aquilo tudo me senti mal de ter sido leitora dele.

  • Pingback: Contraditorium » Previsões de Pai Cardoso para 2007()

  • erisson

    eu adorava ler os texto dele mais quando eu vi a verdade sobre o que ele pensa me sinto um verdadeiro idiota.

  • Pingback: Contraditorium » Momento Revolt()

  • catarina

    Acho seus textos muito, muito bons. São originais,cheios de estilo, bem pensados e muitíssimo bem escritos. Você devia organizá-los e publicar um livro, que poderia se chamar Contraditorium. Eu compraria correndo um título de sua autoria.

  • Pingback: Polzonoff()

  • Pingback: Os melhores textos que eu discordo! ? Revolução Etc()