Quem diria, atores militantes nem sempre fazem papel de bobo

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Em uma das eleições do Lula a Regina Duarte foi escorraçada pela classe artística por cometer o terrível pecado de não votar no PT, aparecendo em um vídeo onde dizia que tinha medo do até então desconhecido Batráquio Vermelho de Moscou.

Considerações ideológicas à parte, o vídeo era uma bosta. “mimimi tenho medo se fulano ganhar” nem de longe é uma forma digna de discutir política, como também não é a participação da classe artística, que se resume a transferir prestígio dizendo “vote em fulano”, como se mostrar os peitos na TV ou comer a mocinha na novela habilitasse alguém a dar conselhos eleitorais.

Mesmo hoje o discurso continua patético. Na TV temos artistas se candidatando, seja para garantir um pé-de-meia pro final de carreira, seja para se safar antes dos 15 minutos de fama acabarem.

A militância artística engajada então, está um saco. Ninguém discute proposta. Poste uma caricatura do Serra, 10 mil RTs. Poste uma denúncia sobre o PT, 10 mil RTs. Fale da proposta de um candidato, questionando algo, nenhum RT e várias acusações de que você apóia a oposição, mesmo que tenha feito o mesmo 5 minutos antes, com uma proposta da oposição.

O artista hoje vende seu candidato como quem vende sabão em pó, e trata a oposição como trata o time adversário a seu time do coração. Gente de talento RECONHECIDO age de forma retardada, abre mão de sua maior arma, pra repetir bordões “fulano é chato feio e bobo”.

“ah, mas não tem jeito”

Tem sim, é aí que entra Bridget Mary McCormack.

Ela é irmã de Mary McCormack (a família não tinha muita imaginação), atriz que participou das últimas temporadas de West Wing. Bridget é candidata a uma vaga na Suprema Corte do Estado de Michigan, na parte não-partidária da eleição.

Eleições nos EUA são bem mais complicadas que as nossas, eles votam em tudo. Xerife, Promotor (Dent 2012!), legislações como liberação de maconha medicinal, e até em Juízes da Suprema Corte de alguns Estados.

Se fosse aqui ela colocaria a irmã na televisão dizendo “Contra Burguês, Vote 16” ou outra retardice qualquer. No máximo “Oi, eu sou a atriz Mary McCormack, vote na minha irmã, o adversário dela é feio e bobo e as pesquisas do Michigan Times são falsas, exceto quando posicionam bem a Bridget”.

Como lá não é aqui, a irmã atriz chamou os amigos, mostrou as propostas e demonstrou um problema REAL: a maioria das pessoas não vota nas seções não-partidárias das cédulas. Representantes são eleitos com pouquíssima representatividade.

Eles compraram o peixe, se voluntariaram e com US$5 mil de seguro obrigatório (coisas do sindicato) e colaboração dos amigos, botaram mãos à obra.

O grupo era de peso: Allison Janney, Richard Schiff, Janel Moloney, Bradley Whitford, Joshua Malina, Melissa Fitzgerald, Lily Tomlin e Martin Fucking Sheen.

Isso mesmo. Praticamente o elenco todo de West Wing, fizeram uma cena no estilo do episódio, demonstrando a importância do voto não-partidário, pedindo para que as pessoas votem, de preferência na Bridget McCormack, mas até no “outro cara”, mas votem.

Também fizeram uma versão sem o pedido de voto na candidata, apenas assinado pelo comitê de campanha.

O resultado? O Vídeo subiu dia 19 de Setembro. Hoje, começo do dia 21, já havia atingido 81 mil views no Youtube. 81 mil views em um vídeo de 4 minutos falando de política.

Uma busca por “haddad” no YouTube reporta em 1o lugar um clipe da campanha, com 32 mil views em dois meses, e em segundo o 1o programa eleitoral da campanha, com 34 mil views em 4 semanas.

Buscando por José Serra, o primeiro vídeo tem 2600 views em um mês e é “Eleitor pede autógrafo de José Serra em livro Privataria Tucana”. Na primeira página de resultados o vídeo mais acessado, com 50 mil views em um ano é “Maçonaria e Illuminati José Serra em Aliança a Nova Ordem Mundial.flv”.

Como quero demonstrar e acho que fica bem claro, é possível para um grupo de atores com talento se fazer ouvir, passar uma mensagem ÚTIL dentro do discurso político. Só é preciso que façam o que sabem fazer melhor, atuar.

Passar o dia inteiro escrevendo “Çerra” ou postando link do Maluf do lado do Haddad, me desculpe, é fazer papel de boboca e isso não requer talento nenhum.


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  • Outstanding! Enquanto isso, temos o movimento gota d'água. Amo muito tudo isso!

  • odeio esse negócio de nos EUA é melhor do que no Brasil, mas a classe artística podia aprender uma coisa ou outra com essa situação

    • flyren

      Mas nos EUA tudo é melhor que no Brasill…

      • Daniela

        Eita…

    • Politicamente falando, os EUA são muito mais maduros que o Brasil. Odeie ou não.

  • Enquanto nos EUA o esforço é pra fazer o americano ir votar, aqui no Brasil o bonito é não votar em ninguém, não comparecendo ou votando em branco. Tem-se a impressão de que ao anular o voto, você está protestando ou tornando a política melhor, quando em termos práticos você só está deixando as outras pessoas decidirem por você.

    • 1k2

      Lembre que aqui é uma das poucas democracias em que você é obrigado a votar.

  • Enquanto lá, o candidato mostra por que merece o voto. Aqui, os candidatos vivem em uma briga ridícula pra descobrir quem é pior.

    • Daniela

      Que nada! Lá a baixaria é muito maior do que aqui! É de Mônica Lewinsky pra baixo.

  • Bruno

    lol, peguei todas as referencias…

    mas olha só, eles já pararam com o "contra burgues vote 16", agora é "não sei o que o trabalhador ganha pouco e trabalha e o patrão a lucrar"

  • T_E_Lawrence

    Genial!

    ______
    42

  • tudo lei de efeito

  • Cardoso,
    Muito bom seu espaço. Linguagem franca, fácil e inteligente.
    Passei por aqui e vi coisas interessantes.
    Estou levando para minha experiência de aprendiz de blogueiro boas sacadas.
    Parabéns.
    Sucesso sempre, foco contínuo.
    Forte abraço,
    agamenonplait.blogspot.com

  • heheh, uma coisa interessante, lá os sindicatos realmente funcionam

  • Opinião RH

    excelente…por isso não da pra comparar ..pessoal formado estudando shakespeare, actor's studio, com bobalhões esquerdopatas como jose se abreu e pereio, ainda estamos a anos-luz dessa realidade, infelizmente. Texto fodástico!

  • CauÊ

    O sistema eleitoral americano é ridículo. Só existem dois partidos que se revezam no poder há centenas de anos e alguém vem dizer aqui que eles tem uma democracia "mais madura". O voto não é direto, não existe propaganda política gratuita (o que aumenta as discrepâncias financeiras) e não existe partido de esquerda. Concordo apenas na questão dos artistas, os de lá parecem estar menos engessados pelos "assessores de imprensa". Falam publicamente sobre temas polêmicos como drogas, aborto, etc.