A Guerra Mais Curta da História

Bom dia crianças, antes de começar o texto de hoje, um pequeno esclarecimento: Alguns textos do Contraditorium terão uma versão em vídeo. Pois é, virei videomaker (que é como a gente chamava Youtubber nos Anos 80) . Agora eu transo vídeo. Assim incluirei nos textos o vídeo, que conta essencialmente a mesma história, mas não faz nenhuma diferença se você ignorar e só ler o texto. É uma opção para o leitor e um novo caminho para conseguir expandir meu público para outros formatos. De forma alguma isso significa que o Contra será negligenciado. Isso aqui ainda é minha casa minha terapia e minha fonte de álcool.

Portanto, vamos ao nosso causo de hoje:

Os jornais adoram reclamar das intervenções dos EUA no Oriente Médio como atoleiros intermináveis, mas sendo realista, são guerras limitadas e muito curtas. Se a Segunda Guerra Mundial não fosse tão abrangente seus seis ou sete anos nem piscariam no mapa das guerras. Vietnam durou 20 anos, Guerra Civil Argentina durou 66 anos, as Guerras Apaches foram 75 anos e a Guerra da Reconquista durou intermináveis 774 anos. (fonte)

O outro lado é mais raro e mais divertido, guerras curtas, e nenhuma dessas foi tão curta quanto a guerra Anglo-Zanzibar.

Pra quem não sabe, e eu não sabia, Zanzibar é um pequeno arquipélago na costa da Tanzânia. Ainda não se achou? Eis um mapa:

Se você ampliou a imagem viu que Zanzibar fica perto de Pemba, mas eu não vou me rebaixar e fazer as 343423 piadas que passam pela minha cabeça neste momento. É fácil demais.

Essa ilhazinha era um protetorado britânico, ou seja: Pequena demais para justificar o investimento de transformar em colônia. Imagine Bespin, mas com governantes bem mais picaretas que o Lando Calrisian. O Sultanato era alinhado com a coroa britânica, a ponto de terem um tratado onde um novo sultão só poderia ascender ao trono após a confirmação por parte do governo inglês.

Isso não deu muito certo quando em 25 de Agosto de 1896 bateu as botas o Sultão Hamad bin Thuwaini, e assumiu o trono seu sobrinho, que por não ser nenhuma Brastemp, não foi aprovado pelo cônsul britânico. Khalid bin Barghash tentou conseguir apoio de outros países, mas convenhamos quem vai se indispor com o Império Britânico por causa de uma ilhota perdida? Sim, Falklands, estou olhando pra vocês.

Khalid viu que a coisa não estava boa pro lado dele, então se aquartelou no palácio real com soldados, servos, escravos, concubinas e provavelmente eunucos.

Os ingleses por sua vez convocaram os navios nas proximidades, e durante o dia 26 tentaram convencer Khalid a sair do palácio e entregar o trono para Hamud bin Muhammed, o candidato preferido pelo Império Britânico. Não deu jeito.

Na manhã do dia 27, os ingleses deram um ultimato. Khalid ignorou e respondeu que queria uma conferência. Os ingleses mandaram ele pastar. Khalid então respondeu, às 8:30 da manhã, dizendo que não acreditava que os ingleses iriam atacar, e que pagaria pra ver.

Durante o dia 26 os ingleses haviam reunido no Porto de Zanzibar uma frota com 1050 fuzileiros, 3 cruzadores e duas canhoneiras. A marinha de Zanzibar se resumia ao HHS Glasgow, um navio velho que era o Iate do Sultão e dois barcos minúsculos. Pra piorar, o Palácio Real ficava quase na água:

Às 8:55 foi dada a ordem par ao ataque. Precisamente às 9:02 os primeiros tiros dos navios destruíam as peças de artilharia que Khalid havia conseguido juntar. Todas as quatro, e por peças de artilharia eu quero dizer estes canhões quase medievais.

Em seguida os navios miraram no palácio real, que por ser de madeira não resistiu lá muito bem. Nesse momento, em algo que pode ser chamado de Crime contra a Homennidade, um projétil explosivo atingiu em cheio o harém do Sultão, que pegou fogo na hora.

RIIP Harém

No mar o Glasgow bem que tentou, mas essencialmente um navio de passeio, com armamento mínimo incluindo uma metralhadora Gatling que havia sido presente da Coroa Inglesa, ele não teve muita chance. Atacou os navios ingleses e foi prontamente afundado, bem como os dois barquinhos, talvez só pela afronta.

Com o palácio em chamas, Khalid fugiu pra embaixada alemã, que ficava na mesma quadra, e a guarnição do palácio se rendeu. Ao final Zanzibar tinha 500 mortos, a maioria por causa do incêndio. Os ingleses tiveram um marinheiro machucado, mas que se recuperou totalmente depois.

A Guerra Anglo-Zanzibar começou, durou e acabou em um período de tempo de 38 minutos.

O nada honorável Khalid bin Barghash.

Khalid se asilou na embaixada alemã, mas não podia colocar os pés em solo Zanzibarense, ou seria preso. Os alemães arrumaram para que ele fugisse na maré alta, quando um barco chegou ao quintal da Embaixada Alemã, de onde ele pulou para bordo, sem pisar no chão fora da embaixada. De lá ele foi para a África Ocidental, então colônia alemã, foi capturado pelos ingleses em 1916, exilado em Santa Helena e nas Ilhas Seychelles (coitado) e eventualmente voltou para a África Ocidental, onde morreu em 1927.

Quanto aos derrotados, os britânicos ainda fizeram com que eles pagassem a munição que gastaram nessa presepada toda. Ao menos ninguém gastou dinheiro pagando hora-extra.


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  • Lucas Timm

    Fica esperto, Kim Jong Un

    • Ed. Blake

      Sim, porque mísseis intercontinentais supostamente termonucleares são quase a mesma coisa que um caiaque com uma metralhadora.

    • Rafael Rodrigues

      Ele já tá esperto há muito tempo.

  • Guilherme

    Dei um play no vídeo e pausei. Agradeça pelo view depois.
    Edit: Não desprezando, é que venho aqui sobre o trono para ter uma excelente leitura. Boa sorte na empreitada. Agradeça pelo view depois.

    • Vinicius Mello Lima

      Acho que o tubo conta de forma separada quem vê até o fim ou quem só começa e não termina. Melhor colocar no mudo e deixar rolando até o final.

      • Guilherme

        Fazendo isso agora. Vlw

    • Guilherme

      Fui ver um minuto do vídeo, por curiosidade. Acabei vendo o vídeo todo. Dei um like (só agora porque só é possível fazer isso no app do YouTube).
      Não vou dizer pra me agradecer depois para não ficar chato.

  • “Os ingleses tiveram um marinheiro machucado, mas que se recuperou totalmente depois.”
    No corre-corre provavelmente encostou num canhão quente.
    Esses marinheiros.

  • hbeira

    Ainda pagaram pela munição gasta, que massa. :-P
    PS: Chinesa Videomaker?

    • Reinaldo Matos

      Na verdade isso não é novidade… Digamos que é prática o país perdedor arcar com os reparos da guerra.
      A Alemanha, por exemplo, quitou em 2010 suas dividas referente a 1ª Guerra

      O engraçado foi terem cobrado de um pedaço de mato sem nada na África…

      • Pobretano

        Bem, o causo é que a Alemanha fez muita merda, mas não sei se aquilo foi ressarcimento pelos gastos das outras nações…

        • Reinaldo Matos

          Alemanha foi só um exemplo…
          O Paraguai também teve divida com o Brasil referente a Guerra do Paraguai, porém, esta dívida foi perdoada pelo Getúlio Vargas.

          Se não me engano, a Alemanha também teve divida da segunda guerra, porém, essa tinha sido perdoada

  • Hemeterio

    sobre sobrinhos passando a perna nos tios, mas ri horrores do atual déspota saudita, um millennial todo sorrisos mas que sera um decapitador de primeira. Pois bem, ele prendeu um tio “corrupto”, liberou o velhote sob fiança de 1 bilhao, comprou um da vinci por 450 milhoes e embolsou o resto. Um filantropo, um santo, estou as lagrimas.

  • Don Scopel

    “É uma opção para o leitor e um novo caminho para conseguir expandir meu público para outros formatos.”
    Cardoso, do jeito que você fez a narração do video ta fácil de converter pra mp3 e fazer um podcast, hein? ;)

  • Eduardo Scharf

    Ainda bem que depois de ler o artigo eu vi o vídeo, tem cenas pós-créditos!

  • Carlos Quáglio

    E em troca dessa brutalidade toda Zanzibar deu à Inglaterra Farrokh Bulsara, vulgo Freddie Mercury… https://uploads.disquscdn.com/images/7e369d6e775e6aee2132c30e8576aedb2869b38e7a98692a171677de2ac258d7.jpg

    • Reinaldo Matos

      Passei um tempo tentando ver onde eu poderia citar o Frederico Mercúrio nos comentários..

  • Oliver Wilson

    Ficou legal. Ainda tenho saudades da Sala da Justiça do MeioBit…

  • Esses teus textos sobre guerras me lembrou um comentarista chato do Meiobit que considerava os seus textos por lá com um tom muito belicoso.

  • Matheus-Bard

    A conta no PicPay tem q existir no máximo 4 horas para o código funcionar. Próximo mês meu bom senhor.

  • 1. Conhecer Zanzibar é pré requisito para qualquer jogador de Metal Gear II.

    2. A Reconquista (citada no vídeo) é que foi a mais curta. De 43 segundos.

    3. Cardoso está muito automático (e travando) no vídeo (fruto de leitura + timidez ((acho))). Talvez umas Gins Tonicas ajuda a soltar.

  • Rudney Marengo

    Li o texto e vi o video. A forma que você escreve, tem um ritmo bem característico. No video achei que ficou muito vomitada a leitura. Tenta focar mais no ritmo que fica foda.

    • Isto tem a ver com a magia da leitura que deixa os autores mais perfeitos. Ao ler, sem conhecer pessoalmente o autor, você cria uma imagem mental do narrador, voz, entonação. Livro não gagueja, não muda o tom de voz, fala no ritmo que você quer, etc.

      • Leo Lemos

        já eu antes de ouvir a voz dele lia com aquela voz imaginária que nos temos e tava de boa, fazendo como o @rudneymarengo:disqus disse, naquele ritmo característico citado…

        depois que eu ouvi ele lendo um texto (lives e podcasts não vale) continuou do mesmo jeito, apenas troquei aquela voz imaginária, pela voz real dele :-)

        o qual complexo (computadoramente falando) seria esse processo que nós humanos fazemos automagicamente ao ler um texto e “ouvir” o mesmo enquanto lemos? pelo que sei agora que começou a surgir esse tipo de coisa…

        como sempre, excelente trabalho sr. @ccardoso:disqus :-)

  • Ronaldo José Carneiro Bernarde

    Foi uma guerra amoral, como toda guerra imperialista.

  • Deb

    No fim das contas, o cara não era a melhor opção mesmo. Os ingleses estavam certos.

  • Rodrigo Elesbão

    Não entendo porque você não aponta a câmera pra própria cara e sai falando do mesmo modo que escreve, mais ou menos na linha do que é feito no Aviões e Músicas. Seria questão de afinar a temática – parece que já há uma -, uma identidade visual – a do site já é uma -, e um roteiro padronizado – algo que quem é capaz de escrever um livro tira de letra. Ou estou falando besteira?